A semana trouxe várias notícias que agitaram o meio político mas, no que diz respeito à Operação Lava Jato, as mais importantes foram a homologação da delação da Odebrecht pela Presidente do STF, e em seguida o “sorteio” do novo relator do caso naquela Corte.

Eis que, no mesmo passo em que a homologação se deu, surpreendentemente, sem grande alarde (talvez em função do inesperado sigilo que foi decretado), já o tal “sorteio” do ministro Edson Fachin para relator deu o que falar. No artigo O suspeitíssimo “sorteio” eletrônico do STF levantamos a atividade em torno do ministro Fachin nos dias que antecederam sua escolha, tudo indicando que ele fora convocado de volta a Brasília, da Europa, para assumir esse posto.

Já havíamos pesquisado, com o pouco que existe disponível sobre o assunto, como funciona o sistema de sorteio eletrônico do STF. E não ficamos nada surpresos com a total falta de transparência do sistema. Todos já devem saber que, bastou o TSE dar 15 minutos de acesso às nossas “infalíveis” urnas eletrônicas, para pesquisadores da UnB descobrirem nelas algumas falhas gravíssimas. Aliás, segurança das urnas eletrônicas do TSE é alvo de críticas de especialistas desde os anos 1990, quando começaram a ser usadas para “sortear”[sic] quem é eleito no Brasil.

Ontem, comentamos a coluna de Eliane Catanhede sobre o sistema de “sorteio” de processos do STF. A própria jornalista brincou sobre o resultado do processo porque, como o mundo todo viu, parece que não houve sorteio algum. Edson Fachin aparentemente foi escolhido a dedo pela cúpula do poder brasileiro, dentro e fora do STF. É razoável jogar o peso dessa suspeita sobre o STF, porque no momento em que a sociedade pediu para ver o programa que faz os “sorteios”, o órgão pediu QUATRO meses de prazo para preparar o programa para ser apresentado ao público. QUATRO meses é tempo para desenvolver um novo programa, não para apresentar algo que foi usado ONTEM em uma decisão que afeta todo o futuro do Brasil.

Para um pacato cidadão da civilização talvez o programa de sorteio nem exista. Vai que eles apenas distribuem os processos como cartas de um baralho, enfim. Com a falta de transparência podem-se criar teorias mirabolantes e todas fazem sentido, pois há completa ausência de dados sobre o tal sistema de sorteio.

STF: A Máquina de Criptografar do Estado Brasileiro

O lado positivo de tudo isso, é que colocou na berlinda o sistema de “sorteio” eletrônico do STF, porque a atitude em torno do sistema de sorteio é idêntica a tudo que diz respeito ao STF.

A verdade é que o STF é uma caixa preta. Como diria Sir Winston Churchill, “o STF é uma charada, embrulhada em um mistério, dentro de um enigma”.

O palavreado utilizado pelos ministros encontra-se completamente fora do alcance da compreensão popular. Como dizem alguns, trata-se do mais refinado advoguês. Uma frase jurídica bem construída é como criptografia forte para os cientistas da computação, é a arma dos advogados quando precisam que algo não seja entendido por mais ninguém fora do meio jurídico, e talvez nem mesmo entre eles.

E podem ter certeza que, apesar dos olhares atentos e dos acenos concordantes, se um ministro decidir “falar complicado”, nenhum dos outros ministros tampouco irá entender nada. Apenas acenam positivamente,  disfarçam e assinam em baixo.

Isso torna o STF uma casa especial para tomar decisões que a população não pode, ou não consegue, entender e, muito menos, questionar. Quando o governo precisa de um resultado controverso, mas não sabe como conseguí-lo na feira barulhenta do Congresso, o problema é jogado para o outro lado da Praça.

O STF é a máquina criptográfica do poder público. Os assuntos ingressam no STF, lá são tornados incompreensíveis, para só depois produzir um resultado qualquer, normalmente algo que interesse à cúpula do poder nacional.

O próprio edifício do STF tem o formato de uma caixinha de máquina criptográfica, reparem.

A forma segue a função: no sistema político brasileiro, o STF tem a mesma função da máquina criptográfica de Tatjana Van Vark. Aquilo que lá ingressa não será compreendido por mais ninguém. Foto: Wikimedia Commons

Von Neumann no STF

Outro fato positivo, trazido pelo súbito interesse no sistema de “sorteio” do STF, é que os jornalistas passaram a discutir o que é um algoritmo.

Alunos e iniciantes à ciência (e arte) da computação quase sempre erram a definição de algoritmo. Felizmente, todos os jornalistas que decidiram se manifestar sobre o assunto definiram razoavelmente bem esse conceito fundamental. A imprensa, então, passou a discutir o “algoritmo” que faria o “sorteio” dos processos no STF.

Uma das frases mais célebres sobre sorteios eletrônicos e algoritmos foi proferida pelo pai da arquitetura do computador moderno, Jon Von Neumann.

“Aquele que tenta produzir números aleatórios por meios algébricos é um pecador.”

E o problema do mundo, como todos sabem, é que há pecadores demais por toda parte.

Veja bem.

O professor Diego Aranha, da UnB, em 2012, inspirado pelas incontáveis críticas feitas às urnas pelo professor Pedro Rezende, foi até o STF e sentou-se à frente de um terminal de uma urna eletrônica – dessas urnas aí – as urnas infalíveis que sorteiam o próximo presidente.

O que descobriu lá foi surpreendente. Para decidir a ordem “sorteada” de gravação dos registros de votação, a urna eletrônica do TSE usava um método algébrico de geração de números “aleatórios”.

Pecadores!

A álgebra é um perigo para os políticos, porque ela não mente. Os políticos gostam de números aleatórios, explicações mirabolantes, embromation, enrolation, saltos quânticos e as malas de dinheiro do Schrödinger (a mala de dinheiro está aqui. ou não. sumiu! incrível!).

Pois a álgebra passou uma banda nos politicos do TSE. As urnas eletrônicas, que já vinham sendo usadas há 16 anos, “sorteavam” o próximo número “aleatório”, com base no anterior, e no anterior, e no anterior…

Se você descobrir o primeiro número, você descobre todos os outros números, como uma fila de dominó onde o anterior derruba o próximo. E onde estava o número inicial da urna eletrônica do TSE? Bem ali, diante de quem quisesse olhar, em uma variável chamada “NUMERO_INICIAL_SEGREDO_TIRE_AS_MAOS = 0”. (Essa nós inventamos, mas foi algo mais ou menos assim.)

É assim que funciona a função rand() da biblioteca de linguagem C subjacente a praticamente todos os sistemas populares como Mac, Android, Windows, Linux e outros. Esse método de geração de números “sorteados” chama-se LCG, ou “Linear Congruential Generator”. Ele apenas pega o número anterior, multiplica por algo, soma algo, e divide por algo – tendo como resultado o resto dessa última divisão. Esse é o método algébrico que era usado para “sortear” endereço de gravação de votos nas urnas eletrônicas do TSE que eram até então usadas em eleições gerais. Demorou-se menos de 5 minutos para reverter o processo todo e identificar todos que haviam votado em determinada urna.

Esse sistema, onde identificar todos os votos das urnas de forma trivial, foi usado de 1996 a 2012. Foram 16 anos durante os quais massivas propagandas do TSE garantiam o total sigilo da votação eletrônica, quando não havia, na prática, sigilo nenhum.

O TSE demorou até um certo tempo para esquecer a frase do Von Neumann : “Aquele que tenta produzir números aleatórios por meios algébricos é um pecador.”

Mas esqueceram. Pois dois anos depois, em 2014, encontraram várias falhas semelhantes logo antes das eleições.

Hajam terços para pagar tanto pecado.

As urnas do TSE sorteiam, a do STF decide. Ou vice-versa?

A verdade é que as urnas eletrônicas do TSE sorteiam quem vai ocupar cargos públicos, e a urna do STF decide quem vai relatar cada processo. O povo “sabe” disso, não precisamos entrar nas minúcias sobre algoritmos e números aleatórios. Ninguém liga para detalhes no Brasil, porque detalhes são apenas detalhes.

Certo?

Talvez.

Quem sabe.

Ou não.

Aqui Jaz Alan Turing

Sir Alan Turing, inventor do computador moderno.

A placa em destaque é a lápide daquele que é considerado o pai da computação. Alan Turing, pesquisador britânico. Gay, ateu e vegetariano. Sofreu perseguição implacável no meio político e acadêmico britânico e amanheceu morto apenas 9 anos após vencer a II Guerra. Ninguém sabe ao certo quem matou Alan Turing, se foi ele mesmo ou um terceiro. Só o que se sabe é que ele detinha segredos que mais ninguém conhecia. Por ser gay, foi dispensado do serviço público britânico com desonra. Apenas nos anos 2000 tudo isso foi reparado de forma póstuma. Turing foi outorgado com o título de nobreza, tornouse Sir Alan Turing, e seu túmulo teve a placa trocada, para incluir a frase “pai da ciência da computação, matemático, lógico, decifrador de códigos de guerra e vítima de preconceito”.

A história de Turing marca o nascimento dos nerds atuais. Turing é o primeiro grande nerd da era moderna. Um homem pequeno, franzino, inseguro e que detonou o maior exército do mundo sem dar um tiro. Turing foi responsável, junto com os poloneses, pela quebra da cifra Enigma usada pelos nazistas. Com a máquina Bombe que ele criou, os Aliados sabiam com um ou dois dias de antecedência sobre as operações do exército nazista.

Turing dedicou sua vida a construir uma máquina universal, que fosse capaz não só de quebrar a criptografia do inimigo, mas de ser programada para fazer outras funções. O resultado foi a máquina de Turing, também conhecida por “máquina universal”.

A máquina de Turing foi então implementada por Jon Von Neumann, que utilizou uma plataforma que separava memória, processador e armazenamento. Essa arquitetura é usada até hoje nos computadores modernos que temos em casa.

Assim como na Inglaterra do século XX, Turing provavelmente não seria muito querido no meio político brasileiro. Se Turing construísse uma máquina para sortear, ela sortearia. E se fizesse uma máquina para decidir, bem….ele fez uma – que derrotou o exército de Hitler.

Alan Turing é o pai do algoritmo, assunto que foi tão debatido durante essa semana em que jornalistas debatiam o algoritmo da máquina de “sortear” do STF.

Este blog transcreve, então, uma mensagem exclusivamente psicografada para nós, por ninguém menos que Sir Alan Turing, sobre a máquina de “sorteio” do STF:

“Não tem algoritmo nenhum, seu burrão.”

 

Foto: Wikimedia Commons User Lmno

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