Os brasileiros tem se orgulhado do trabalho da Polícia Federal no combate ao crime organizado, com especial visibilidade à Operação Lava Jato. O que muitos não sabem é que nossa polícia troca constantemente conhecimentos com a polícia federal mais famosa do mundo, o FBI.

Os Estados Unidos já tiveram diversas grandes operações de sua polícia federal, inclusive algumas tornaram-se filmes clássicos. Como, por exemplo Os Intocáveis, onde o agente do FBI Eliot Ness coloca como meta desmantelar a organização criminosa de um dos mafiosos mais famosos da história, ninguém menos que Al Capone. Nesse tipo de operação, há espiões e traidores por toda parte, e o grupo que persegue a organização criminosa deve ser unido e leal para que a operação tenha sucesso. É isso que se vê hoje no âmbito da Operação Lava Jato, onde há bilhões de reais em jogo, as pessoas mais ricas do Brasil encontram-se presas e há o perigoso uso da máquina pública por parte de alguns investigados de alta periculosidade.

O FBI não é estranho a dolorosas traições.

O ex-agente do FBI e espião duplo Robert Hanssen negociou trocar a pena de morte por prisão perpétua em troca de sua colaboração com os investigadores. Foto: Governo dos Estados Unidos

Outro caso em que os canas americanos trabalharam sob o mais absoluto sigilo foi na investigação de um perigoso espião americano, que repassava todas as informações mais valiosas do país a agentes da Rússia. Durante décadas os Estados Unidos não conseguiam encontrar a fonte dos vazamentos. Após usar as táticas de espionagem mais avançadas em existência, além de investir milhões de dólares em recursos públicos para descobrir quem era o traidor número 1 da América, chegou-se à pessoa que menos se esperava: o próprio chefe das investigações sobre esse suposto espião. O agente duplo Robert Hanssen, do próprio FBI, estava, este tempo todo, fingindo investigar a si próprio.

A PF brasileira, e o FBI não podem brincar em serviço. O trabalho é perigoso, há traidores por toda parte, e os criminosos podem estar entre os agentes públicos mais poderosos do país. Aqui você conhecerá alguns dos segredos do FBI, a polícia federal dos Estados Unidos.

Agentes do FBI tem total liberdade para procurar suspeitos

Agente do FBI observa parte de uma reserva de índios Navajo. Foto: FBI

Diferente de algumas instituições policiais, o FBI não fica aguardando ser acionado para entrar em campo. Agentes do FBI encontram-se por toda parte, tomando um café, passeando no aeroporto ou lendo um livro no engarrafamento de trânsito – e qualquer dessas situações pode gerar uma nova investigação, caso a oportunidade apareça. A instituição não impõe a seus agentes necessariamente uma rotina específica. Quando não estão trabalhando em um caso ativo, agentes do FBI encontram-se livres para policiar, por decisão própria, situações que considerem ser suspeitas. Isto faz do FBI uma das forças policiais mais eficientes do mundo, pois em qualquer lugar, sem necessitar de uma ordem expressa, um agente do FBI pode testemunhar o indício ou flagrante de um pequeno delito que os pode levar a uma enorme investigação posteriormente.

Quando os informantes não são mais úteis, o FBI os ajuda a “desaparecer”

Infelizmente a cena é muito comúm. O informante cumpre uma pena reduzida por haver colaborado com a Justiça, porém no dia de sua soltura, um carro o aguarda do lado de fora. Dentro, comparsas daqueles que delatou o aguardam para cumprir sua sentença de morte. Bandidos nunca esquecem. Por isso, se o FBI quiser manter uma linha de informantes para futuras investigações, devem garantir que seus informantes anteriores não sejam todos assassinados após colaborar. Por isso, existe um extenso programa de proteção a antigos colaboradores que, normalmente, faz com que os delatores “desapareçam”, mudem-se de cidade, ou até mesmo de país, e assim possam viver sob nova identidade.

Como os infiltrados recebem pagamentos por sua contribuição

Uma das frases mais célebres da história dos escândalos políticos nos Estados Unidos é “siga o dinheiro”. Quando proferida pelo delator conhecido por “Garganta Profunda”, essa frase referia-se ao escândalo Watergate, que derrubou o presidente Richard Nixon. O que o delator queria dizer é : basta seguir o rastro do dinheiro que chegarão aos responsáveis pelo escândalo de Watergate. No caso, o responsável era o próprio presidente dos Estados Unidos.

O crime organizado também sabe seguir o dinheiro. Possíveis colaboradores da polícia, que se encontrem infiltrados na organização criminosa, receberão alguma recompensa por seu trabalho. Transferências bancárias e remessas em dinheiro significariam a morte certa do colaborador. Assim, o FBI mantém uma extensa rede de troca de valores, para que os delatores não sejam descobertos. Segundo os jornalistas investigativos do The Intercept, esses pagamentos são frequentemente feitos em mercadorias apreendidas do próprio crime organizado e até mesmo na forma de descontos em diversos produtos. A forma como os descontos são obtidos são, claro, um segredo bem guardado pelo FBI.

Você provavelmente já conversou com um agente do FBI na internet

Agentes do FBI são usuários de Internet como quaisquer outros. Foto: FBI

Durante um momento de raiva, você já teria cometido uma gafe como a Madonna? Ameaçado causar um dano ao presidente ou a algum patrimônio público dos EUA? Teria brincado a respeito de drogas, armas, contrabando, lavagem de dinheiro ou algum outro assunto que envolva crimes federais nos Estados Unidos? Mesmo que o tenha feito de forma ingênua, sem real intenção de cometer um crime, você chamou a atenção do FBI. E muito provavelmente terá trocado mensagens com um agente infiltrado no campo de comentários de sua rede social favorita.  Você talvez pensasse estar conversando com um estudante revoltado como você, mas do outro lado havia um senhor de meia idade, especialista em cibercrimes, e ele estava tentando descobrir se você é realmente um radical que oferece ameaça à sociedade, ou se é apenas um bom cidadão num dia ruím.

O poder de polícia do FBI é gigantesco, bastam indícios para quebrar sigilos completos

Após os ataques terroristas do Onze de Setembro, os poderes de investigação das diversas forças policiais americanas foram bastante expandidos. Hoje, o FBI consegue obter uma ordem judicial para quebrar todos os sigilos de um cidadão com base apenas em indícios de um crime de grande potencial. O terrorismo é o principal alvo, porém fraudes financeiras na Internet e outros cibercrimes também estão na mira do FBI. A obtenção de ordens judiciais em casos com poucos indícios tem sido alvo frequente de controvérsias entre grupos que advogam por maior privacidade e direitos individuais nos Estados Unidos.

O FBI investiga a própria polícia

Por incrível que pareça, uma das tarefas do FBI é investigar-se a si próprio e a outras forças policiais. O exemplo do espião Robert Hanssen é um dos motivos pelos quais a policia federal dos EUA toma tantas precauções com seus próprios agentes e os agentes de outros departamentos de polícia. No entanto, as forças policiais estaduais não costumam lidar com dados internacionais. Assim, o problema de espionagem internacional encontra-se mais voltado para instituições federais que para as polícias dos condados e estados. Porém, ninguém está fora do alcance do FBI. Havendo uma suspeita de crime em qualquer força policial, e que envolva interesses federais, alí pode haver uma intervenção do FBI.

O FBI pode estar infiltrado em qualquer grupo político ou religioso

O movimento pelos direitos civís, liderado pelo Dr. Matin Luther King, foi constantemente monitorado por agentes infiltrados pelo FBI

Este é um assunto controverso, também revelado por jornalistas investigativos nos últimos anos. Instituições religiosas não se encontram fora do alcance do FBI. Frequentemente essas instituições são infiltradas por agentes que se passam por fiéis dessas religiões, ou até mesmo já sejam pertencentes à referida religião, que ingressam em templos onde acreditem estarem sendo propagadas idéias radicais. Aqueles que acreditem se tratar apenas de uma religião específica, não poderiam estar mais enganados. Existem grupos extremistas de diversas religiões e diversas raças que já foram infiltrados pelo FBI.

Religião e raça podem te tornar em alvo de investigação do FBI

Infelizmente o assunto do “perfilamento racial” ainda é muito controverso nos Estados Unidos. A constatação de diversos estudos realizados, é que realmente negros e pardos são mais vigiados pelas forças policiais. A religião, como se pode imaginar, também tem sido um fator de classificação informal de suspeitos. Apesar da lei proibir qualquer tipo de discriminação por raça ou religião, na prática as estatísticas mostram que a vasta maioria das abordagens e suspeitas são em cima de pessoas de raça negra ou parda, ou que tenham aparência do oriente médio.

O FBI tem acesso a informações da NSA e CIA

Outra questão bastante controversa para o FBI é a combinação de informações obtidas por meio da inteligência militar com o trabalho de policial civil. As regras de combate dos militares, ativos fora dos Estados Unidos, são totalmente incompatíveis com as leis que regem a vida dos residentes no país. O cruzamento de dados obtidos por meio de serviços de inteligência do Departamento de Defesa (defesa contra ameaças externas) em investigações de cidadãos americanos (defesa interna, a cargo do FBI) é alvo de diversos processos e protestos por diversas entidades de defesa dos direitos individuais.

Edward Snowden é atualmente foragido dos Estados Unidos justamente por denunciar a existência de um programa desse tipo, onde um órgão de defesa militar (NSA) estaria monitorando cidadãos dentro dos Estados Unidos.

Diferente do Brasil, nos Estados Unidos as Forças Armadas não podem agir em defesa da lei e da ordem. Os militares federais dos EUA são banidos de agir como polícia interna sob quaisquer circunstâncias normais( exceto se houver uma invasão de uma força externa, o que nunca ocorreu ). Portanto o trabalho de vigilância por parte de uma instituição militar tem sido bastante questionado na Justiça americana.

Aviões do FBI filmam constantemente cidades inteiras dos Estados Unidos

Pequenos aviões passeando tranquilamente pelos ceus de sua cidade podem não ser um casal de namorados ou um milionário em seu tempo de lazer. Aviões equipados com os melhores equipamentos fotográficos e de vídeo, capazes de filmar mínimos detalhes em edifícios, ruas, casas, capazes de capturar áudio de uma conversa ao pé da orelha a centenas de metros de altura são uma das ferramentas de investigação mais poderosas do FBI. Há grupos de entusiastas que se dedicam a tentar descobrir quais aviões são particulares, e quais são dos policiais! Há fóruns inteiros na Internet dedicados a buscar identificar a atividade policial!

Um fato curioso dos Estados Unidos é que o hobby de monitorar a polícia é 100% lícito. Onde no Brasil você precisa obter uma licença de rádio-escuta da Anatel, ou ter cursos especializados para poder possuir equipamentos de espionagem, nos Estados Unidos a atividade de “vigiar quem te vigia” é um direito totalmente assegurado pela lei. Desde, é claro, caso você intercepte uma informação sigilosa e que vá prejudicar uma ação da polícia contra o crime, você não a use a seu favor ou a favor dos criminosos, caso no qual você poderá ser considerado cúmplice. Porém, apenas monitorar e tomar conhecimento do trabalho da polícia americana não configura crime. Há sites onde você pode ouvir o rádio da polícia, interceptado por um internauta e retransmitido pela internet, de forma 100% lícita. Nesse aspecto, o Brasil precisa ampliar bastante os poderes do cidadão para permitir tal nível de participação da sociedade na fiscalização de quem nos fiscaliza.

Bem, agora você ja sabe um pouco mais sobre a polícia federal mais eficiente do mundo. Agora deixem-me ir ver quem bate à minha porta, pois vejo pela janela 3 camionetes pretas estranhas, cheias de antenas no teto.

 

Com informações do The Intercept

Imagem em Destaque