Os aparelhos eletrônicos da atualidade são basicamente descartáveis. Se quebrou uma parte interna ou queimou um componente, o mais provável é que se jogue o aparelho inteiro fora para adquirir um novo.

Não precisamos abordar o problema pela ótica de como isso afeta o meio ambiente. É, há muito tempo, sabido que a política de obsolescência planejada é um desastre para o planeta.

Lixão eletrônico. Consequência da cultura dos aparelhos descartáveis e da obsolescência planejada. Foto George Hotelling. Canton, MI, Estados Unidos - Wikipedia

Lixão eletrônico. Consequência da cultura dos aparelhos descartáveis e da obsolescência planejada. Foto: George Hotelling. Canton, MI, Estados Unidos – Wikipedia

Pelo lado técnico, porém, o assunto começa a tomar uma dimensão de movimento social. Surgem, por toda parte, grupos de ativistas que defendem o direito do consumidor de reparar seus próprios pertences quando tiver conhecimento para isso.

Prova de que o consumidor possui esse desejo inerente, é o ressurgimento de tecnologias há muito pensadas obsoletas. Há comunidades dedicadas ao conserto de amplificadores a válvulas, por exemplo. E entusiastas de aeromodelismo, hackerismo de hardware de computador, clubes de eletrônica, entusiastas de automobilismo que se reúnem para consertar seus próprios automóveis e assim por diante. A vontade de ter conhecimento e saber interferir tecnicamente em seus pertences é uma vontade natural das pessoas.

Então, onde foi que se perdeu essa possibilidade? A resposta está na miniaturização.

Hoje, um componente eletrônico contido em um iPhone, por exemplo, normalmente vem no formato SMD, de “Surface Mount Device”. São componentes que vão soldados na superfície da placa de circuitos eletrônicos. Caso o leitor não seja familiarizado com eletrônica, as placas de circuito impresso (PCI) costumavam ser perfuradas, e os componentes passavam seus eletrodos (“pernas”) por entre orificios e eram soldados do outro lado onde faziam contato com trilhas.

Componentes SMD exigem técnicas especiais para serem removidos e soldados de volta no local.

Componentes SMD exigem técnicas especiais para serem removidos e soldados de volta no local.

Essas PCI’s que prevalesceram até os anos 1990 eram possíveis de serem reparadas facilmente. Porém, com a miniaturização, as placas tornaram-se mais e mais difíceis de reparar. Hoje os componentes SMD podem ter alguns décimos de milímetros na sua maior dimensão, e circuitos integrados altamente densos contém milhares de componentes que antes eram discretos. Ou seja, se um capacitor ou transistor estourar dentro de um “chip”, não há conserto possível. Apenas é possível a troca completa do componente, ou do aparelho inteiro.

No entanto, tendo conhecimento de técnicas adequadas, e ferramentas específicas, é possível reparar quaisquer placas eletrônicas, mesmo as extremamente miniaturizadas.

Ativistas vem trabalhando para obrigar os fabricantes a fornecer manuais técnicos que permitam que reparos sejam efetuados pelos usuários. Já existem vários projetos de lei propostos nos Estados Unidos. Porém a briga é grande para preservar segredos industriais por parte dos fabricantes.

Há, por exemplo, denúncia de que a Apple, Xerox e Cisco tenham patrocinado lobistas profissionais para “matar” um projeto de lei de Nova Iorque, pelo qual as fabricantes teriam sido obrigadas a fornecer detalhes técnicos de seus aparelhos para que usuários fossem capazes de consertá-los.

A discussão promete. E, como quase tudo que surge na América, em breve esse debate deverá encontrar-se sendo discutido no Brasil.

Referências

iFixIit.org

The Repair Association

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