O roubo de energia elétrica é frequentemente mostrado com foco nos usuários fraudadores do sistema. O que o noticiário não mostra, porém, é que o fraudador pode ser o próprio relógio medidor de consumo.

Um estudo da University of Twente, na Holanda, publicado na renomada IEEE Electromagnetic Compatibility Magazine, mostrou que relógios eletrônicos, também chamados de “medidores inteligentes”, estavam fraudando a conta dos consumidores holandeses em quase 6 vezes mais que o consumo real.

(A publicação IEEE é revista por pares acadêmicos de todo o mundo e é considerada como a mais importante publicação da área de Engenharia Elétrica.)

O medidor inteligente, coincidentemente, vem se tornando obrigatório no Brasil. Todas as novas instalações domésticas e industriais de diversas regiões do Brasil já devem ter o medidor eletrônico instalado, não sendo mais autorizado o uso do tradicional “relógio”.

Como podíamos imaginar, o novo medidor obrigatório no Brasil é justamente aquele que está superfaturando as contas dos consumidores na Holanda.

O medidor eletrônico é capaz de aferir o consumo da energia ativa e reativa, função que os relógios analógicos eram incapazes de realizar (por isso a energia reativa era frequentemente objeto de multas e sanções a bares, restaurantes e grandes empresas). Essa funcionalidade mais completa é a principal justificativa das provedoras de energia para obrigar o uso do novo sistema.

Porém, como vemos, pode haver algo mais por trás de tanta pressa na mudança para os medidores eletrônicos.

É estimado que na Holanda pelo menos 750 mil unidades consumidoras estejam utilizando os medidores eletrônicos, o que significa que podem ter ocorrido milhões de Euros em cobranças muito acima do valor.

É bom o consumidor brasileiro estar atento à instalação deste tipo de medidor em sua empresa ou residência. Os relógios fraudadores foram fabricados entre 2004 e 2014, porém as marcas não foram especificadas no press release da universidade. Segundo a publicação, a própria natureza dos medidores eletrônicos (e não uma marca específica) seria a causa do problema : pela forma com que funcionam eles não conseguem aferir corretamente o consumo elétrico oriundo de equipamentos chamados “chaveados”, que incluem computadores, lâmpadas de LED, aparelhos eletrônicos em geral, e assim por diante. Todos os aparelhos que utilizem “dimmers” ou fontes chaveadas podem fazer com que os medidores eletrônicos meçam um consumo muito maior que o real.

Privacidade em Cheque

Outro problema que está sendo levantado em relação aos medidores eletrônicos é a questão da privacidade. A Electronic Frontier Foundation, ONG com missão de defender os direitos individuais no mundo digital, afirma que os medidores eletrônicos coletam informações demais sobre os consumidores, e transmitem tudo para a central sem o conhecimento dos proprietários. De fato, os relógios podem capturar dados transmitidos pela rede elétrica, bem como servir para vândalos e ladrões saberem quando há movimentação em casa, entre outros dados da residência.

 

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Foto: Laboratório onde foi realizado o estudo da Universidade de Twente – Copyright(C) Univesity of Twente – Holanda

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