Parte I – O Romance

No início, as redes sociais atraíram a curiosidade das pessoas para a grande novidade da paquera online. A cena mais repetida na noite de milhões de pessoas foi algo tipo

  • “Você conhece a fulana? Ela é maravilhosa!”
  • “Nossa, puxa o perfil dela aí!”

E assim começa a visita ao “book” virtual da garota: fotos, bicos e beijinhos. E do rapaz fotinhos de standup paddle, na praia, malhando e mostrando seu lado saudável e de bom parceiro. 99% dos perfís de redes sociais são o que Freud traduziria como um ritual de acasalamento virtual, com um parceiro que vamos conhecer em alguma ocasião futura (após bisbilhotar a vida inteira da pessoa na rede social). Traduzindo: algo que não ocorre em qualquer outra espécie animal.

E até que essa época do entusiasmo com a paquera foi legal.

Parte II – A Guerra

Só deu ruím quando os ex começaram a degladiar-se entre si (literalmente em alguns casos) e quando os futuros relacionamentos foram destruídos pelo passado que as redes sociais nunca esquecem. A mina apagou as fotos, mas muita gente salvou no telefone e no disco rígido. O ex-marido usou as fotos para tentar tomar a guarda dos filhos e a ex-mulher decidiu mostrar pelas fotos de churrascos de 15 anos atrás que o ex era um alcoólatra inverterado.

Rolaram chantagens, extorsões escancaradas e sutís, assédios morais no emprego e jogo sujo de toda espécie. Muito machismo, muito preconceito, às vezes falso feminismo, e a vida de homens e mulheres virou de cabeça para baixo por sua ingenuidade de postar publicamente nas redes. Falsas acusações de estupros tornaram-se virais, espalharam-se como fogo no cerrado e destruíram a vida de pessoas inocentes. Mulheres que marcaram encontros publicamente, anunciando a todos onde estariam, chegaram ao local combinado e encontraram seu algoz no lugar de amigas. O sujeito que monitorou a ex e foi à sua casa em um encontro marcado pelas redes sociais, e tirou a vida de uma família inteira.

Pós-Guerra – A Paranóia

A tal da rede social virou um pesadelo para a vida pessoal e amorosa de muita gente e vários, incontáveis, casamentos terminaram em tragédia devido ao uso indiscriminado da tecnologia.

E então chegou a era da paranóia.

A primeira dúvida em massa que tomou a Internet era saber se o dono ficava sabendo que alguém estava bisbilhotando seu perfil, ou se era anônimo. Correram boatos de que algumas redes divulgariam quem estava visitando o que. A fuzarca estava armada, pois 99% da atividade de “paquera” nas redes sociais era na verdade puro voyerismo.

Depois veio o medo do/da ex estarem monitorando seus passos. Várias mulheres trancaram seus perfís online, outras mudaram de nome e passaram a combinar encontros com as amigas apenas por mensagem privativa. Casais passaram a contratar detetives particulares para seguir seus pares pelas redes e nas ruas, angariando informações para substanciar um futuro processo de divórcio.

As pessoas passam a sentir-se inseguras sobre o nível de acesso concedido a seus posts, fotos, vídeos e outros compartilhamentos. Aquele arquivo compartilhado na nuvem está devidamente trancado? Aquelas fotos….foram mesmo apagadas? E o sistema de recuperar arquivos apagados que tem em vários sistemas de nuvem? Aí entra a velha máxima da Internet: o que é colocado online nunca mais é apagado.

Resta saber qual a porcentagem dessas paqueras, que popularizaram e lançaram a moda das redes sociais, resultaram em um relacionamento saudável, duradouro. E quantos foram apenas casos de voyerismo e bisbilhotagem anônima. Aposta-se facilmente nos 99.99% pro segundo caso.

O Admirável Novo Marketing

Depois da epopéia dos romances online, as redes passaram então pela experimentação do marketing científico. Descobriu-se todo tipo de coisa sobre os hábitos de consumo das pessoas. Os anúncios são capazes de apresentar um produto tão específico ao usuário que chega a ser assustador.

Depois foi divulgado que grandes empresas rastreavam seus usuários pela Internet afora mesmo quando esses não haviam usado recentemente seus serviços. Como resultado construiu-se um banco de dados de informações pessoais tão preciso, que em alguns casos é possível prever a próxima necessidade do usuário antes mesmo dele buscar pelo produto online. Usando métodos estatísticos como machine learning, as redes sociais passaram a ser capazes de prever o que o usuário irá fazer.

As Redes Sociais Sabem Antecipar a Formação de Casais

Por exemplo: descobriu-se o padrão de comportamento online de quem está iniciando um novo relacionamento. Há um grande surto de atividade na rede social, e então uma pausa, e então surge no status do perfil o anúncio de que está em um novo relacionamento com outro usuário X. Com enorme precisão as redes sociais são capazes de detectar esse padrão antes dele se concretizar, para saber que um casal será formado dentro de alguns dias ou semanas!

O Marketing Sabe Tudo

A privacidade foi para o espaço. Alguém lá no console central da rede social sabe absolutamente tudo sobre você, tem fotos de seus pais, de você criança, de seus avós, de seus filhos, e por meio das fotos tem registros biométricos e biológicos que seriam difíceis de se obter caso solicitados pelas autoridades. Mas lá está, tudo fornecido voluntariamente, espontâneamente. E hoje se sabe que as autoridades de alguns países tem acesso a tudo. Seria impossivel construir um banco de dados semelhante pela via estatal, mas bastou criar um software fácil e prático e as pessoas lá publicaram suas vidas inteiras voluntariamente.

As Redes Sociais Nada Esquecem – Você amadurece, mas suas fotos e registros desastrosos do passado não.

Pessoas cometem erros. Todos tem o direito a cometer desvios, por vezes, pois somos falhos. O bom do ser humano é que a ciência de que somos todos falhos nos faz compreender que o erro alheio pode nos ocorrer também. Salvo absurdos e atrocidades, a grande maioria dos desvios pessoais cometidos são pequenos, sem potencial ofensivo. Uma mentirinha para evitar um mal estar, um desabafo quando se está angustiado, uma ofensa impensada quando se está muito magoado ou sob grande pressão ou estresse. Tudo isso ocorre naturalmente nas relações interpessoais e normalmente não tem consequências permanentes.

Você esquece, as máquinas não

Nosso cérebro possui a incrível capacidade de esquecer. Assuntos passados, não mais relevantes, são “esquecidos” para o bem do convívio social.

Mas as redes sociais não esquecem mais. Tudo que é registrado nas redes sociais torna-se permanente, eterno. Dentro de 10, 20 anos tudo pode ser consultado em um console de computador. Suas fotos com o ex-namorado, seu mico porque bebeu demais, a batida de carro, sua postagem sobre alguma droga recreativa, seu desabafo sobre algum político ou sobre algum assunto controverso, tudo está lá gravado para sempre. Dentro de alguns anos você amadurecerá, mudará, se arrependerá de muitas coisas e talvez sinta saudades de outras, mas as redes sociais nada esquecerão, nem amadurecerão. As pessoas que tem acesso à seus dados simplesmente irão consultar sua vida e lhe apresentarão seus piores momentos lá registrados como arma contra você.

Apagar algo apenas remove o conteúdo de vista, nos bancos de dados das redes sociais nada é apagado. Até mesmo por motivos jurídicos.

E, como você já deve saber, nada é apagado de verdade nas redes sociais. Você pode sair, pedir para apagar sua conta, se voltar dentro de 5 anos estará tudo lá como deixou. E quando apaga uma postagem ou foto, ela é apenas marcada para não ser apresentada, porém ela fica nos bancos de dados eternos da rede social. Nada é apagado das redes sociais : seus namoros, acertos, fracassos, mágoas e desabafos todos estarão lá dentro de 20, 30 anos.

E se houver um vazamento como vários que já ocorreram? Se hackers divulgarem tudo que ha nos bancos de dados das redes sociais, incluindo chats e mensagens “privativas”? Pense em um cataclisma, processos judiciais, milhões de divórcios e até políticos expostos. Esta semana foi revelado que o Palácio do Planalto guardava todas as senhas de redes sociais no Google Docs. Imagine se ocorre um vazamento generalizado de tais redes sociais! Quantas informações críticas não seriam expostas?

Smartphones – “Sonho do Stalin”

Segundo Richard Stallman, pai do movimento Software Livre, os smartphones eram o sonho do Stalin. A todos filmar, gravar, monitorar, localizar – a qualquer hora do dia ou da noite, com o toque de um botão remoto.

Smartphones cujas baterias são impossíveis de remover, podem ser desligados na perspectiva de seu dono, mas encontram-se sempre ligados para quem o controla remotamente.

Até o inicio dos anos 2000, o número de telefone celular trocado entre pessoas implicava apenas que essas pessoas poderiam telefonar entre si. Não havia qualquer informação pessoal trocada implicitamente quando havia o intercâmbio de números de telefone.

Juntando o telefone com o perfil social

Porém, em determinado momento, isso começou a mudar. Hoje, o seu número de telefone é ligado ao seu perfil de uma rede social, seja essa ligação explícita, como no caso de aplicativos de troca de mensagens, seja ela implícita, como a que existe entre aplicativos de mensagens adquiridos por grandes redes sociais. Ao fornecer se número de telefone casualmente para um contato de negócios ou pessoa recém conhecida, portanto sem intimidade, sua foto já constará no perfil do telefone.

No momento em que inseriu o novo número de telefone, ele já foi enviado para o banco de dados central, que consultou sua foto de perfil lá armazenada e a devolveu para o telefone. Em algum lugar, um banco de dados estabeleceu que o número A e o número B “tornaram-se amigos”. Bastou intercambiar números de telefone, como se fazia há décadas. Porém a maioria das pessoas sequer se atentou para o complexo processo internacional de cruzamento de dados que aconteceu naquele instante.

Se a pessoa com quem você acabou de trocar números de telefone estiver em alguma lista de nomes restritos em certos países, a partir de então você também estará. É a esse nível que chegamos.

Monitoramento remoto de seu Smartphone em Tempo Real

Não só há o cruzamento de números de números de telefones com perfís de redes sociais, como também há o monitoramento ativo dos donos de smartphones. Por exemplo, para que o smartphone seja capaz de obedecer a comandos de voz, é preciso que o microfone esteja “aberto” 100% do tempo. Quem já enviou  uma mensagem de voz por um app de mensagens sabe que é muito rápido e prático enviar grandes quantidades de conversação. Da mesma forma que ocorre quando apertamos um botão, o aparelho pode, quando programado para isso, gravar tudo e transmitir remotamente sem o dono saber. O processo interno no aparelho é o mesmo, muda apenas o fato desse recurso estar sendo usado para bisbilhotagem da vida alheia e não de forma autorizada pelo usuário.

O usuário efetua “check in” em algum estabelecimento comercial, e dias depois surgem anúncios no seu computador de mesa relacionados a produtos comercializados naquela loja. O smartphone efetuou troca de dados com seu perfil na rede social e com grandes redes de distribuição de anúncios, e determinou que havia a probabilidade do usuário clicar naquele tipo de anúncio.

Smartphones e Dados Financeiros

Observe, por exemplo, as permissões solicitadas pelos aplicativos mais comúns. O aplicativo para consultar o saldo do FGTS, por exemplo, solicita acesso às suas fotos, sua localização, sua rede sem fio e vários outros dados sem sentido. Para que um aplicativo de consulta de saldo de impostos e contribuições precisa desse tipo de acesso ao seu smartphone? Aplicativos de contabilidade e impostos enviam todos os seus dados financeiros remotamente, “para backup” ou o que seja.

Você autorizaria que sua cópia do imposto de renda fosse enviada por email para alguém em um servidor remoto, via email por exemplo? Então por que as pessoas autorizam tão facilmente o acesso de aplicativos a todos os dados de seus smartphones?

Smartphones e Dados Médico-Hospitalares

O seu aplicativo de consulta ao resultado de exames médicos, por exemplo, solicita acesso quase irrestrito ao seu smartphone. Quando você faz um backup na nuvem, todos os seus dados médicos são enviados para a mesma “nuvem”, e para os mesmos bancos de dados, onde se encontra pelo menos um de seus perfís de redes sociais. Os dados mais íntimos que um ser humano pode ter, do conteúdo de seu proprio sangue, é enviado por seu smartphone para um servidor remoto onde os dados ficam à disposição de quem tiver acesso a eles.

“Backups” dos Smartphones na Nuvem (Com ou Sem Sua Autorização)

Na verdade você sequer precisa solicitar um backup na nuvem – os aparelhos atuais fazem backup automaticamente. Anos atrás isso seria chamado de spyware (ou “programa espião”), pois sua agenda pessoal inteira é enviada para servidores remotos sem sua autorização. Os principais fabricantes de sistemas para telefones deixam essa opção ligada desde a compra. Você precisa desabilitar esse eficiente sistema de spyware se quiser evitar o “backup” de seus dados remotamente. Infelizmente, quando você desativar essa funcionalidade, o aparelho já terá feito um primeiro backup contendo todos os seus dados. Hoje em dia tornou-se “normal” ter todos os seus dados enviados para qualquer lugar, sem ter idéia do que é feito com tais dados. Admirável mundo novo.

Joguinhos de Smartphones transformam seus filhos em espiões internacionais

Seria coincidência que os jogos mais populares para smartphones são feitos por empresas ligadas a agências de espionagem? Uma breve pesquisa em sistemas de busca revela que os fabricantes dos joguinhos mais baixados na atualidade são desenvolvidos por empresas do ramo de inteligência. Imagine milhões de câmeras e microfones ambulantes, filmando tudo, registrando as ruas e as casas das pessoas! Stalin nunca pensou em algo parecido! E coitados dos pais que negarem aos filhos o uso de tais aplicativos: será uma choradeira incrível, pois todos os amiguinhos do colégio já se tornaram espiões voluntários! Filmam escolas, hospitais, ruas, becos, igrejas, não há lugar fora de limites para crianças filmando tudo com seus joguinhos de smartphones!

Sua Vida Profissional na Berlinda – Stalking permanente de chefes e colegas

Lembra seu desabafo sobre o político X? Pois é, seu novo chefe em potencial é sobrinho dele. Ia ser, pois ele já olhou sua vida na rede social e não vai te contratar. Sobre que falamos anteriormente, lembra daquele mico absurdo que você pagou 10 anos atrás no carnaval fora de época? Pois é, triste heim, mas seu concorrente não postou nada errado na rede social jamais, é um careta completo, e ganhou sua vaga.

E aquele seu amigo que te marcou em uma foto em um momento jóia na reunião para a qual você não chamou o chefe e os colegas. Bacana o clima na segunda feira né? E aquele seu errinho no emprego anterior, que tirou o sistema do ar ou causou prejuízo ao seu empregador? O chefe já te perdoou, mas a rede social não esqueceu.

“Manchurian Candidate”

Você progrediu na vida, subiu no emprego e então decidiu candidatar-se a prefeito. Fez uma ótima administração, e se elegeu deputado, senador e então presidente da república. Em uma reunião com um presidente estrangeiro, você ouve a seguinte frase “você irá nos ceder os campos de exploração de nióbio A, B e C”. Você diz não, isso é de interesse do meu país e não posso ceder a vocês.

E então, na semana seguinte, fotos e vídeos constrangedores que você fez 20 anos atrás, e que estavam armazenados na “nuvem” ou nas redes sociais, aparecem publicados online, em um site sem nome. A imprensa tem um orgasmo. “Mega vazamento de dados expõe presidente”. Sua imagem já era.

Você começa a suar frio, tem taquicardia, não consegue acreditar que aquilo está diante de você. O mundo todo está rindo de você. E aquilo é apenas uma amostra. Dias depois o contrato de exploração de nióbio é assinado, e nada mais “vaza” na Internet.

O cenário aí exposto pode ter ocorrido com um presidente do Brasil, ou não. Depende apenas se um de seus filhos ou parentes cometeu algum desvio captado pelas redes sociais. Com presidentes e CEOs de grandes empresas já ocorreu, e é por isso que a primeira orientação dada a grandes executivos é de só usar as redes sociais para futilidades lúdicas. Nada real ou pertinente deve ser postado, apenas o lúdico.

Um teste simples: fique sem conferir mensagens no telefone ou nas redes por apenas um dia.

Desligue sua rede social por apenas um dia. Verá que 99% do seu tempo online é investido adquirindo conhecimentos totalmente dispensáveis. É sua vida que está passando enquanto você está dentro de um software de computador achando que está tendo uma experiência real. Desligue o programa de comunicação do telefone, e verá que não tem motivo algum para ficar verificando novas mensagens de 5 em 5 minutos! É difícil no início, mas tente e perceberá uma significante melhoria na qualidade de vida.

Para piorar, estão chegando os óculos de realidade virtual que vão acabar de acabar com a vida real de muita gente e irão consumir o tempo que restava para interações humanas. Para muitos, tudo será vivido dentro de um programa de computador, quase como previsto por Orwell, or Huxley ou, mais recentemente, por filmes como Matrix. Aliás ninguém imaginou que o previsto se tornaria realidade com tamanha precisão. O mundo moralmente falido descrito por Huxley e Orwell tornaram-se realidade menos de um século depois, apenas décadas depois.

Observe os posts mais curtidos das redes

De volta às redes sociais, observe os conteúdos mais “curtidos” e verá que são porcarias totalmente dispensáveis à sua vida, meros passatempos aos quais você poderia ter acesso fora das redes sociais e sem ter que passar por tanto escrutínio de sua privacidade. Assuntos sérios normalmente geram controvérsias irremediáveis e terminam em briga. Ou seja, a rede social não serve para nada sério, é apenas um passatempo onde você está dando de presente seus dados para marketeiros e espiões. Se falar em algo sério, pode te prejudicar no trabalho, no relacionamento, e por aí vai. Pois todos discordamos sobre diversos assuntos. Então como resultado, as redes sociais se tornaram em centrais de propagação de ruído. 99% do conteúdo produzido nas redes sociais é ruído, os outros 1% são aproveitáveis.

A obesidade intelectual – 99% do conteúdo das redes é dispensável.

Tudo isso tem gerado o problema conhecido por “obesidade intelectual”.

A pessoa sabe de tudo em detalhes, sabe que mentos com coca-cola explode, que gatos fazem coisas engraçadas, que armas atiram em baixo d’agua, sabem como os terroristas matam, viram imagens horríveis de rebeliões em presídios, bisbilhotaram a página do parente da pessoa que faleceu e que foi noticiado na imprensa…. observe que 99% do conteúdo intelectualmente adquirido nas redes sociais apenas distrai e aliena.

Resultado: as pessoas tem tanto conhecimento dispensável em suas mentes, que não ligam mais para situações absolutamente absurdas. Surge a notícia de que seres humanos foram decapitados vivos em um presídio em plena democracia, e nos comentários das notícias lêem-se os maiores absurdos imagináveis. Parece que as massas foram totalmente insensibilizadas pelo excesso de informação. Os cérebros das masssas consumidoras da porcariada das redes sociais estão obesos e incapazes de absorver o significado real dos acontecimentos.

Insensibilidade devido ao Excesso de Informação

É noticiado um rombo de 170 bilhões de reais, e as pessoas seguem pacíficas. E quando as passagens de ônibus sobem 50 centavos, há quebra-quebra generalizado. Ou seja, as massas tornaram-se incapazes de medir grandezas e de pensar 2 ou 3 passos adiante, só o que importa é aquilo imediatamente à sua frente. O preço da comida a ser ingerida daqui a 3 horas, o preço da passagem a ser comprada daqui a 6 horas, e só.

O pensamento abstrato que caracteriza a suposta superioridade intelectual humana sobre outros animais está se esvaindo. Pessoas pensam só no imediato e são capazes de julgar apenas o palpável, sem conseguir pensar abstratamente. As redes sociais estão imbecilizando a humanidade com eficácia assustadora.

Pseudo Jornalismo – “Repercutiu nas redes sociais”

O ciclo é retroalimentado pela grande mídia. “Tal fato repercutiu nas redes sociais” tornou-se jargão de imprensa. O jornalismo da CNN, nos Estados Unidos, foi, durante um tempo, ridicularizado em programas de comédia(Daily Show do Jon Stewart para citar um) pois estavam fazendo “jornalismo Twitter”. Qualquer besteirol que atingisse o topo dos trending topics do Twitter tornava-se matéria nas redes de notícias tradicionais. Tornou-se um ciclo vicioso : besteiras propagadas na rede tornam-se besteiras propagadas na mídia tradicional, que repercutia de volta nas redes.

Resultado: há estudos mostrando que redes sociais são puro ruído sem conteúdo. A mesma notícia é repetida várias vezes mudando pouca coisa, só para angariar mais cliques. Pseudo-detalhes sobre gafes e outras futilidades são noticiadas e tornam-se virais, só para distrair e entreter, sem ter real conteúdo jornalístico. E por aí vai.

Click bait a passarinho

Para citar um exemplo no Brasil, há um site político que publica pequenas notas nas redes sociais como iscas de cliques (clickbait) e, ao chegar ao site vê-se um pequeno comentário, de algumas palavras talvez, seguido da citação de algum trecho de reportagem de algum grande jornal(quando isso). Mas não tem problema, a intenção é obter cliques e tráfego, e nisso eles são mestres. Um dos “jornalistas” responsáveis por tal site era especialista em gerar controvérsia em uma revista de circulação nacional. Se você faz esse tipo de coisa em pequena escala é chamado de troll, mas se o faz em nível internacional, é chamado de “polemista”. O nome correto é clickbait, ou isca de cliques para obter dinheiro com algum tipo de monetização, normalmente anúncios. Usam as redes sociais meramente como local para acirramento de opiniões controversas, que lhes geram enorme tráfego no site. E não se preocupam com o imenso efeito colateral que essa prática ocasiona : a radicalização de opiniões e a multiplicação do ódio contra os alvos da polemização sistemática.

Difícil de entender como no Brasil ainda não houveram mortes como resultado do processo político ocorrido nos anos recentes. Mostra que a sociedade realmente está se controlando pois, se depender de alguns difusores de controvérsias, as pesssoas já estariam se matando nas ruas.

Grupos – Panelinhas dominadas pelo mais popular e não pelo maior conhecedor.

Os grupos sobre assuntos específicos também padecem do mesmo problema da timeline geral das redes sociais. Inicia-se um grupo com determinado assunto. Entram vários interessados e começam um diálogo. Vem um comentário totalmente equivocado, porém popular, e ganha votos dos leigos, sendo elevado ao topo. Com grande número de votos, e popularidade entre os participantes do grupo, o comentário não pode mais ser questionado. Aí entra um pobre coitado de uma vítima, que conhece do assunto, e diz “pessoal isto está errado”. E é massacrado pela rede de popularidade.

Há grupos sobre assuntos técnicos; engenharia, computação, matemática e outras ciências exatas, onde opiniões totalmente erradas, contas erradas, explicações erradas, sobem ao topo dos comentários sem serem questionados. Por que? Porque os verdadeiros especialistas foram todos moralmente expulsos pela ignorância generalizada das redes sociais.

Como resultado, os grupos de interesse específicos tornaram-se panelinhas de compadres. Não há grande conhecimento e verdadeira colaboração em grupos de redes sociais, na verdade á muita desinformação e dados falhos sendo espalhados 24 horas por dia.

Política – Dividir para conquistar.

As redes sociais desuniram as pessoas mais do que uniram. Sim, há grandes grupos unidos que pensam de forma semelhante. Mas o país de uma forma geral hoje é particionado quase que algebricamente.

Evangélicos contra comunistas, coxinhas contra mortadelas, gays contra conservadores, petistas contra tucanos, conservadores contra liberais, progressistas contra religiosos, militares contra comunistas, reacionários contra isentões, ninguém se salva. O Brasil não é mais uma rica, bagunçada e gostosa mistura de culturas. O país foi todo segmentado e linhas foram traçadas entre as pessoas.

Até poucos anos atrás a religião era assunto de foro íntimo. Macumbeiros, crentes, ateus, muçulmantos, budistas, judeus todos conversavam em uma roda sem sequer saber a religião do próximo. Religião era assunto sagrado, literalmente.

Doutrinamento Online

Mas aí vieram as redes sociais. O lider religioso fulano pregou tal coisa, o lider político conservador falou tal coisa, o comunista tal falou tal coisa, o cara é mortadela, o cara é coxinha e por aí vai. A pessoa não é mais um ser humano complexo, pleno, cheio de dúvidas, inserguranças e fragilidade. O ser humano que estudou 30, 40 anos não é mais um ser cheio de conhecimentos para trocar.

O coronel que foi músico não é mais um violonista e sujeito alegre que adora uma roda de samba, é um milico fascista. O esquerdista que adora visitar Miami e aprecia as boas coisas dos Estados Unidos não é mais um ser humano com uma opinião diferente sobre política, é só um comunista que tem que ser exterminado.

A Impessoalidade que Desumaniza

As redes sociais desumanizam, descaracterizam, apagam as cores e tornam tudo preto e branco. É assustador ver movimentos retrógrados do passado ressuscitados nas redes sociais de forma absolutamente soberba. Tanto de direita quanto de esquerda, ressurgiram “comunistas” que nunca viveram em uma comuna, ressurgiram fascistas que nunca se apaixonaram por um companheiro de ideologia oposta, para entender que o ser humano é muito mais complexo e fascinante que meras ideologias e crendices.

Bandido bom é bandido morto, comunista bom é comunista morto, todo militar é fascista, quem discorda de você é comunista ou fascista, quem argumenta é porque é contra e tem que ser exterminado. Essa é a mentalidade absurda que as redes sociais tem propagado e que, pior, tem sido aceita até por pessoas supostamente esclarecidas. As redes sociais particionaram a população do Brasil da forma mais desumana possível.

Ditadura da Maioria – Milhares de votos não tornam algo falso em verdade, ou o errado em correto.

As redes sociais são o que chamamos de “ditadura da maioria”. No meio acadêmico não existe democracia. Há pessoas mais graduadas que ensinam a pessoas menos graduadas. Aqueles que ingressam na academia chamam-se alunos. “A lunos”, ou “pessoas não iluminadas”. Assim, a opinião da pessoa que se encontra na frente de uma turma tem um peso maior que o da turma :  ele é um especialista, é um doutor, é um pós-doutor, é alguém que dedicou a vida ao assunto que está alí expondo.

Milhões votaram que 2+2=5

Já nas redes sociais, ocorre processo inverso. Assim como o especialista é a minoria em uma turma de alunos, a pessoa que realmente entende de determinado assunto é minoria absoluta nas redes sociais. Como o sistema de seleção do melhor conteúdo nas redes sociais é por meio de votos, elege-se por vontade dos alunos e não do especialista. Resultado: uma quantidade absurda de burrada e ignorância é propagada 24 horas por dia. E pior, essa lixarada intelectual é absorvida pelo povo como se fosse verdade, e é propagada de volta na sociedade que sai da rede social e espalha a ignorância lá adquirida nas ruas.

Comentários em Notícias – Ventilação de mágoas, reclamações e preconceitos.

Por fim, chegamos ao estágio final das redes sociais : tornaram-se um local para ventilar ódio, frustração, mágoa, preconceitos e reclamações sobre todo e qualquer assunto.

Nas redes sociais, o comentário de um pós-doutor em determinado assunto é nivelado com o de uma pessoa preconceituosa e ignorante. Pior: o comentário mais popular, e não o mais correto, é votado para o topo, para ter mais visibilidade, por massas de ignorantes que também estão enganados sobre vários assuntos.

O errado torna-se fato, e a câmara de eco ressoa, com mais e mais ignorantes fortalecendo uma opinião totalmente equivocada.

O recado de um especialista é nivelado com o de milhares de leigos, e os comentários mais sensatos são afogados em meio a milhares de opiniões controversas, preconceituosas e até mesmo criminosas. Assim correm soltas as discussões nos campos de comentários das notícias postadas nas redes sociais. A troca de conhecimentos e a colaboração construtiva entre pessoas é praticamente zero, nula. Lendo os comentários das notícias nas redes sociais ganha-se zero conhecimento e enriquecimento cultural, pelo contrário, dá um certo desespero constatar o nível de ignorância, intolerância e falta de cultura das massas.

Ler os comentários nas redes sociais é um estudo antropológico doloroso. Serve apenas para buscar alguma métrica do quanto o povo está revoltado ou feliz com determinado assunto. Feliz, raramente.

Sobre o Autor

Smith Kamel é escritor e analista de sistemas.

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