O PMDB é um partido sem rosto, sem ideologia, sem propostas, sem projeto e cuja única missão é perpetuar-se no poder. Seja como vice de alguém, ou seja dominando as casas legislativas do país, o PMDB é um partido para aqueles que desejam tornar-se políticos profissionais, não importa qual seja a ideologia vigente. Normalmente os caciques do PMDB não gostam de holofotes, preferem agir nos bastidores.

 

Durante 8 anos do governo FHC, o PT demonizou todas as medidas tomadas pelo governo tucano. Quem não se lembra do Lula jogando pizzas na rampa Congresso? Quem não se lembra do PT sendo contra a Lei de Responsabilidade Fiscal?

Foi com essa audácia, e com seu ativismo intenso e muito bem organizado, que o PT chegou ao poder.

A Vitória dos Revoltados: O PT Finalmente no Poder

Os petistas eram contra tudo! Eram o partido do contra.

Porém o PT era extremamente organizado, hierarquizado e bem articulado para levar sua mensagem a todos os cantos do Brasil – o projeto era consolidar-se no poder em todos os cantos do país.

O PT foi o primeiro partido político brasileiro totalmente informatizado, com total controle central das finanças, gastos e arrecadação. Tinham sofisticados sistemas para avaliação da popularidade de seus membros e adotaram absoluta rigidez na gestão das doações recebidas. Portanto eram o partido ideal para mudar o Brasil : contra tudo, e muito bem articulados. (A organização e a disciplina dos líderes do PT antes de chegar ao poder desmonta a tese de que o “desperdício” de dinheiro público durante a gestão petista seja apenas incompetência e desorganização – o PT não é um partido desorganizado, muito pelo contrário.)

Foi então o consenso nacional atingido em 2002, quando todos estavam cansados da velha política de Brasília. O povo foi às ruas, direitistas, esquerdistas, hipsters, a garotada e os mais velhos juntos, e lotaram o Brasil de bandeiras vermelhas pedindo uma mudança nos rumos da política nacional. Estive em um comício do Lula na Esplanada dos Ministérios onde perdía-se de vista o fim da multidão. Era um movimento popular legítimo, com força poucas vezes vista na história do Brasil.

A revolta nacional que elegeu Lula em 2002 é parecida à reação popular que causou o voto pelo Brexit no Reino Unido. É o povão cansado de ser tratado sempre da mesma forma. É um povo buscando desesperadamente parar de pedalar a rodinha de hamster em que 99% da população mundial se encontra.

O Contexto Mundial

Hoje, no mundo, 99% da população trabalha para sustentar apenas 8 famílias. O nível da desigualdade na distribuição de renda aumentou de forma tão gritante, que os principais ideólogos do neoliberalismo já começam a falar contra o sistema que eles mesmos defendiam 26 anos atrás com o fim da União Soviética.

As promessas de união global, de paz, de amizade e ligação institucional entre os antigos blocos oriental e ocidental nunca se concretizaram. Pelo contrário. Após uma década relativamente amigável após o fim da URSS, iniciou-se uma outra guerra global, desta vez contra um inimigo invisível : o terrorismo.

Nesse contexto, a sociedade brasileira tampouco se reconciliou diante das antigas diferenças que dividiram o povo durante a Guerra Fria.

Esquerdistas ficaram cada vez mais esquerdistas. A direita e a comunidade religiosa conservadora ressurgiu com força surpreendente, tanto nas casas legislativas, como no Poder Executivo e, de forma geral, na própria sociedade que se mostra insegura diante do surto progressista.

O conservadorismo voltou com força, após 13 anos de governo do PT, e o Brasil refletiu internamente aquilo que também ocorre no mundo:  em vez de concretizar-se a união entre ideologias e religiões, fizemos foi dividir nossa sociedade com linhas cada vez mais nítidas. Hoje o mundo está novamente voltando o olhar para sua própria sociedade, a crítica à globalização e seus pífios resultados torna-se cada vez mais forte, e líderes populistas com forte viés nacionalista ganham cada vez mais espaço na política global.

Por ora, retornemos à nossa história.

O PT Começa a Tropeçar

O PT governou o Brasil durante 13 anos com um único propósito: perpetuar-se no poder.

Por que Dirceu ficou calado no mensalão? Para preservar seu projeto de vida, que era perpetuar o PT no poder. Por que Silvinho, Delúbio, Genoino e outros caciques ficaram quietinhos? Para preservar o partido. Como dissemos no início deste texto, o PT é um partido hierarquizado, rígido, e muito bem organizado. A traição em um dos níveis superiores do PT seria uma falha gravíssima nessa organização, uma traição apenas poderia destruir o partido.

E essa traição não ocorreu, justamente pela forma triangular, rígida, que o partido adotou desde o princípio.

E eis que o plano do PT vinha dando certo. O Estado vinha crescendo com ritmo nunca antes visto. Todas os negócios, toda a atividade privada passou a ter que lidar com o poder público. Ao montar uma empresa, ou ter uma nova idéia, era agora preciso pedir autorização para o Estado. Excelentes idéias como o Uber e Netflix esbarram na burocracia estatal e não podem funcionar livremente como nos países que tem verdadeiras economias de mercado.

A verdade é que o Brasil não tem uma verdadeira economia de mercado, temos capitalismo de Estado gerenciado por uma cleptocracia.

Pequenos empreendimentos não conseguem vingar sem juntar-se ao Estado. Aqueles que não ingressam “no sistema” são prontamente abatidos, por meio da burocracia infinita, cobranças absurdas, fiscais prepotentes e impostos surreais. Porém, se quiser ter sucesso, basta tornar-se filiado ao Estado, e aí eles permitirão seu crescimento. Com um custo, é claro: no futuro sua alma pertence ao Estado. Terás que doar para campanhas, seja pelo caixa um ou de qualquer outra forma.

Foi justamente esse monstro estatal que o PT agigantou, que posteriormente viria a engolir o partido. O poder do Estado não parava de aumentar, assim como o poder da polícia, dos procuradores, dos juízes e outras autoridades. Era tarde demais quando o PT notou que o Estado que tem o poder de lhe dar tudo, tem o poder de lhe tomar tudo também.

O Mensalão Derruba o PT e Coloca o PMDB de Volta na Cúpula

O PT pegou esse sistema, que já funcionava dessa forma desde sempre, e aumentou exponencialmente a influência do Estado. Eleger o PT para eliminar a burocracia estatal foi como tentar apagar uma fogueira com querosene. O Estado brasileiro que já era um obstáculo para o progresso, sob o governo do PT teve o maior inchaço já visto no mundo desde os tempos soviéticos.

Os universitários não estudam para serem empreendedores, estudam para passar em concursos públicos. O empreendedor não analisa verbas privadas, nem investe sua poupança em um sonho, ele vai atrás do BNDES para pegar dinheiro estatal “fácil”. As grandes indústrias não arriscam, simplesmente marcam reuniões com ministros, com o presidente, e em seguida obtém toda a verba que desejam.

Não há verdadeira iniciativa privada no Brasil. O Estado é sócio de tudo, o Estado está envolvido em tudo.

Esse era o projeto do PT. O Estado iria deter o controle dos meios de produção, para então deter o controle do país. O governo do PT seguiu o texto de Karl Marx à risca. Só que, para atingir o fim que desejavam, precisariam lidar com os “capitalistas profanos” durante mais algum tempo. Então o PT passou a jogar dinheiro no ventilador para atingir seus fins.

Surgiu então o termo “mensalão”, que nada mais é a política suja que se faz no Brasil desde 1500, agora rebatizada com um nome bem midiático.

Na verdade o PT não inventou o mensalão. Todo brasileiro sabe que é assim que as coisas funcionavam desde sempre neste país. Sempre comprou-se o apoio para projetos de lei por meio de trocas, e essas trocas sempre envolveram alguma coisa pública.  Ainda se fossem negócios privados, poderíamos até entender esse lado pernicioso da combinação de capitalismo e gestão pública, mas as negociatas sempre envolvem dinheiro público fácil.

Se essas trocas antes eram na forma de terrenos, fazendas, escravos, barras de ouro – isso é outra história.  O que o PT fez foi simplesmente agilizar o escambo de cargos políticos e de influência, porque o partido tinha pressa.

Segundo uma das figuras centrais do escândalo do mensalão, algumas das trocas chegaram a acontecer em malas de dinheiro cada uma com 4 a 5 milhões de reais dentro. Até hoje há quem se pergunte onde foram parar algumas dessas malas de dinheiro que não foram devolvidas aos cofres públicos, mesmo com o fim do julgamento da Ação Penal 470 no STF.

O PT estava no caminho que traçou desde 1981. Aos poucos tomavam os meios de produção. Quebraram as microempresas mas não encostaram no grande capital. Não tiveram força, ou coragem, para tributar as grandes riquezas, conforme alardeavam que fariam desde que o partido foi fundado. Em sua primeira reunião com George W. Bush, Lula saiu convertido ao capitalismo. Disse que a Casa Branca era o que todo pobre brasileiro gostaria de ter, e saiu de lá deslumbrado com o poderio e riqueza da América. Desde então Lula abandonou o discurso de tributar grandes fortunas, de procurar as origens de riquezas muito suspeitas, e passou apenas a jogar o jogo. Lula entrou de sola no jogo político que ele prometeu mudar.

Com o PT destruído pelo escândalo do mensalão, eis que surge, lá na encruzilhada, em meio à poeira e aos trilhos ferroviários abandonados, um homem de chapéu preto e muito bem vestido que extende a mão ao presidente Lula. Lula, ainda jogado no chão, aceita o gesto e se levanta, puxado por esse inesperado bom samaritano.

Foi alí, naquela encruzilhada do mensalão que o Lula vendeu a alma ao PMDB. A partir dalí, no segundo semestre de 2005, começa a ser montada a operação que culminou com a queda da Dilma em 12 de Maio de 2016. Mas antes é preciso falar de uma peça importante nessa história, uma mulher chamada Dilma Roussef.

Dilma: O Medvedev à Brasileira

Eis que Lula, um dos líderes populares mais queridos do Brasil, teve uma idéia genial. Faria como Putin fez na Russia: ajuda a eleger um parceiro para a presidência, permanece agindo nos bastidores durante 4 anos, e retorna ao poder nos braços do povo, eleito novamente. Putin fez essa jogada ensaiada com o Dmitri Medvedev, e tudo deu perfeitamente certo.

Uma das cenas mais marcantes dessa jogada de Putin foi quando Medvedev visitou os Estados Unidos e recebeu um recado ao pé do ouvido que foi captado por um microfone, onde ele responde “sim darei conhecimento ao Vladimir”. Ali ficou claríssimo quem era de fato o presidente russo. O episódio, que ganhou as páginas da imprensa ocidental, foi um enorme embaraço para Medvedev que sempre foi muito discreto.

No Brasil o Lula tentou fazer a jogada Putin/Medvedev. Dilma ficaria lá 4 anos, Lula sabia que ela tem perfil de gestora e não de política, e que teria baixa populariadade, e assim ele retornaria ao poder caindo novamente na graça do pov.

Só que Dilma, que antes raramente falava à imprensa, saiu-se uma figura boa de palanque, levou com ela o voto feminino, fez um estardalhaço ideológico pró LGBT e à favor de várias minorias, populista bem no estilo de seu mentor, e assim derrotou Aécio de forma totalmente inesperada e usando todos os meios possíveis (o que posteriormente levaria a seu impeachment).

FHC, Alckmin e outros já estavam a bordo de um avião rumo a Belo Horizonte para comemorar a vitória tucana em 2014. Nem o PT acreditou quando as urnas do Acre fecharam, após uma hora de agonia e silêncio nacional, ao saber que Dilma Rousseff havia vencido por 2 milhões de votos. Lula aparentou atordoado. Os caciques do PSDB sumiram. O país ficou em silêncio: Dilma, aquela que Lula lançou simplesmente para ele voltar, havia tomado seu próprio rumo e vencido as eleições gerais.

Lula ficou pra escanteio e o trem da Lava Jato estava prestes a atropelar a política.

O PMDB Mostra as Garras

Como já dissemos, a idéia chave do PMDB é agir discretamente. Quanto mais publicidade se lança sobre o partido, menos eles se sentem confortáveis. A condição ideal para os chefes do PMDB é ficar onde Michel Temer estava antes do impeachment. Altíssimo cargo, gerenciando bilhões de reais, muita autoridade, prestígio, mas sem tornar-se vidraça. A vidraça da Dilma era a melhor coisa que aconteceu para o PMDB, era o para-raios perfeito.

Só que a tranquilidade esbarrou na Operação Lava Jato, e a tomada do poder tornou-se imperativa, conforme ouvimos na conversa gravada entre dois caciques desse partido: Sérgio Machado e Romero Jucá. Nos trechos divulgados pela imprensa, disseram algo no sentido de que era preciso “tirar a Dilma para estancar a sangria, parar a Lava Jato onde está”.

A Lava Jato foi o catalisador que forçou o PMDB a ganhar os holofotes. Mas não se engane, eles não estão confortáveis na atual condição. Precisam, urgentemente, colocar outra pessoa no poder para retornarem aos bastidores.

O Inevitável Cheque-Mate do PMDB

O herdeiro da presidência seria do PMDB. O chefe do Senado é do PMDB. A maior bancada da Câmara é do PMDB. Qual era o sentido de preservar no poder uma mulher cada dia mais impopular, contra os interesses do mercado financeiro, sendo que toda a estrutura do PMDB lhe permitira substituí-la com facilidade? Todas as instituições necessárias à impeachment eram comandadas pelo PMDB! Seria trivial passar o processo pela Câmara, Senado e devolver o PMDB à cadeira do JK! Dito e feito: em 6 meses o processo de impeachment passou como um tsunami no Congresso.

O Brasil tem, pela terceira vez depois da redemocratização, um vice-presidente do PMDB que assume a Pesidência da República em meio a um tumulto. Sarney no lugar de Tancredo, Itamar no lugar de Collor e Temer no lugar de Dilma.

Dilma não reagiu, pois ela sabia que ela não era peça chave no esquema. Pelo contrário, negociou com o PMDB, e no fim tivemos o seu perdão: ela sairia limpa como indivíduo, apta a prosseguir com sua vida, e o PMDB ficaria no poder. Não houve na história do Brasil um trato mais claro e mais público que esse. Foi amplamente reconhecido que Dilma era só uma peça secundária no tabuleiro, os bispos, reis e rainhas eram outros.

Durante todo esse tempo o PT não protestou o chamado “golpe” em defesa da democracia. O PT protestou porque o PMDB tomou posse da ditadura que o PT demorou 30 anos e trabalhou tanto para montar.

PMDB Herda a Ditadura Pronta

O PMDB herdou do governo do PT? Vejamos.

  • Um Estado com total controle sobre a população, e que usa as Forças Armadas abertamente na garantia da lei e da ordem. Os únicos protestos aceitos são aqueles totalmente pacíficos e ordeiros, o tipo de protesto que não muda nada;
  • Um nível de carga tributária que enfraquece toda a iniciativa privada e mantém o Estado firmemente no comando;
  • Uma população totalmente dividida e incapaz de articular-se de forma homogênea contra o Estado;
  • Uma população amedrontada pela alta criminalidade, pela campanha do desarmamento e os programas de horrores mostrados diariamente na televisão, cujo único recado parecer ser “não saia de casa”;
  • A imprensa chapa branca à disposição de quem quer que esteja ocupando o Palácio do Planalto ou que detenha o controle da verba publicitária;
  • O fortalecimento de grupos religiosos que faz com que grandes massas sejam levadas a agir de acordo com as ordens inquestionáveis de líderes religiosos;
  • Uma crise financeira que justifica medidas impopulares que, muitas vezes, são acompanhadas de medidas de interesse partidário.

Assim, o PMDB consolidou o poder.

Com a população totalmente dividida é impossível criticar o atual governo sem ser chamado de opositor fascista golpista comunista feminista e outras coisas mais. E vice-versa:  a crítica ao governo anterior é vista como atitude fascista, reacionária, golpista e assim por diante.

Esses são os adjetivos do debate político atual – ninguém consegue mais fazer sentido ou apresentar uma proposta sensata em meio a tanta intolerância.

Grupos religiosos diversos divulgam a mensagem de que o partido X ou Y é ruím, e as massas seguem cegamente essas orientações. No momento, o governo do PMDB tem a benção incondicional das maiores religiões do país, e assim as massas permanecem calmas e não protestam.

Vivemos, hoje, o início da ditadura do PMDB. Poder consolidado no Executivo, no Legislativo e, como disse um político famoso, um Judiciário totalmente acovardado (para não usar outro adjetivo).

Se algo não mudar, urgentemente, teremos governantes do PMDB pelos próximos 70 anos, como ocorreu com o partido P.R.I no México durante o século XX.

Lava Jato : Primeiro remédio contra a ditadura do PMDB

A Lava Jato tem uma equipe muito qualificada e que entendeu perfeitamente o plano anterior do PT e o atual do PMDB. Por enquanto não estão deixando o PMDB em paz para concretizar o projeto – logo que notaram a séria ameaça à operação, foram feitas as prisões de grandes caciques do PMDB.

A Lava Jato é a única esperança contra a ditadura do PMDB.

Se os caciques do PMDB não forem todos detidos, como já deviam ter sido ainda em 2016, o Brasil viverá sob uma nova ditadura do populismo, dos impostos cada dia mais altos e do controle da população por meio de leis cada dia mais restritivas.

Redução do Estado: O remédio definitivo contra qualquer ditadura

Por fim, só a redução do Estado e a devolução do poder ao povo podem evitar futuras ditaduras. Não é preciso sair e comprar uma arma de fogo, basta lutar para que o Estado não as possa proibir. Não é preciso ter zero impostos, basta reduzí-los a um nível aceitável que reflita a qualidade dos serviços públicos prestados.

A redução do Estado é urgente, ou viveremos escravizados, pagando cada vez mais impostos e sendo cada vez mais explorados, sob governos do PMDB que prometem durar muitas décadas.

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Samuel Smith Kamel é escritor.

 

Foto em destaque de autoria de Fabio Rodrigues Pozzebom : PMDB anuncia decisão de sair do governo Dilma Rousseff

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