O poder do mito

O que a Rainha da Inglaterra, os Jedis do Guerra nas Estrelas, Jesus Cristo, o Batman e o Sérgio Moro tem em comúm? Parece brincadeira? Mas não é.

Você, por acaso, já ouviu falar no “poder do mito”?

O ser humano, por mais inteligente que seja, depende de um mito para conseguir progredir. Sem a idéia de um ser superior, somos incapazes de manter a máquina funcionando.

Ao longo dos anos, a humanidade criou e propagou aos postos mais altos do poder os mitos que julgou serem os mais decentes, honestos e que tinham a maior probabilidade de nos conduzirem a tempos melhores e mais prósperos.

Para os cristãos, Jesus Cristo é o maior mito da história. Um ser perfeito, sem falhas, totalmente ético, bondoso e que no fim nos guiará à perfeição, rumo ao que é divino.

Para outras religiões, o mito tem nome distinto, mas tem tudo em comúm com Jesus Cristo. Profetas enviados por Deus, para salvar a humanidade, homens apenas em sua concepção física, porém espiritualmente elevados, perfeitos, infalíveis.

Xerxes foi o maior mito militar dos Persas. Saladin Saladino foi o maior mito dos militares Árabes.

Os Cavalheiros Templários foram os maiores mitos militares do mundo cristão – homens honestos, capazes de cuidar dos tesouros do Papa sem roubar uma lasca sequer ou deixar que fossem roubados, homens que morriam queimados sem revelar seus segredos. Mitos.

A Rainha da Inglaterra é o maior mito do Reino Unido. Ela representa a divindade, o que há de mais ético, honesto e perfeito em todo o Reino. Heroína de guerra, juntou-se aos plebeus quando veio a ameaça nazista.

Os nossos militares foram os salvadores da pátria contra o comunismo. FHC foi o salvador da pátria com o Plano Real. Lula foi o mito do operário chegando ao poder do Brasil, o salvador da pátria contra a pobreza.

Getúlio Vargas foi um mito. Fidel Castro foi um mito. Adolph Hitler foi um mito. Cada um deles representou os sonhos de uma nação inteira, sonhos de tempos melhores, de uma alternativa qualquer ao status quo.

Ao longo da história, o ser humano sempre cultuou salvadores da pátria, mitos que trariam prosperidade e segurança para todos. (E raramente acertamos.)

Hoje, no Brasil, Sérgio Moro é o mito da justiça, o juiz mais ético e honesto do Brasil.

Ao escutar a palavra “mito”, basta substituí-la por “salvador da pátria”, e verá que não há qualquer diferença do mito de hoje para os mitos do passado. O ser humano simplesmente não consegue enxergar sua própria pequenez diante do universo ao nosso redor, precisamos de um mito qualquer para nos levar adiante.

Inventou-se o mito de um Deus antropomorfo, um velhinho barbudo e bondoso. Um Deus benevolente que ajuda um time em um jogo de futebol. Mas, Deus, dessa grandeza toda, escolhe o outro time de futebol para perder? Um Deus benevolente que ajudava Ayrton Senna a derrotar os demais? Será que Deus realmente se envolve em jogos e escolhe um lado para vencer? Deus não queria que Alain Prost vencesse o Senna? Ou será que foi a própria fé do Senna, e não Deus, que o propeliu para obter suas incríveis vitórias?

Será que Deus realmente recompensa e castiga? Quando uma baleia abre a boca e devora todo um cardume de sardinhas, essa baleia será castigada por Deus por tirar 400 vidas em uma só dentada? Ou os tubarões e baleias assassinas não precisam hornar o quinto mandamento?

Recomendamos a todos a leitura do livro “O Poder do Mito”. Um registro de conversas mantidas entre Joseph Campbell e um jornalista, onde Campbell explica como criou o mito dos cavalheiros Jedi. Homens infalíveis, de ética perfeita, cavalheiros que dão a vida por lealdade e que são praticamente indestrutíveis. O mito dos Jedi é o mesmo mito por trás do Batman, do Superhomem, do Batman brasileiro personificado no ex-ministro Joaquim Barbosa no STF. Barbosa foi o salvador da pátria brasileira durante alguns meses, enquanto condenava petistas à cadeia. Mas foi logo esquecido, quando não era mais necessário. Como os outros mitos da atualidade também serão esquecidos.

O mito tem uma função ingrata, ele só é útil durante um curto espaço de tempo.

Após os militares “salvarem o Brasil da ameaça comunista”, foram logo descartados pelos empresários que já haviam conseguido o que desejavam. Alguns ricaços até debochavam da falta de diplomacia do João Figueiredo. No fim basta ver uma entrevista do ex-presidente para notar que Figueiredo queria apenas sair do meio desse jogo podre em que os militares foram inseridos e usados – para fins de negócios. “Me esqueçam, é só o que eu quero”, disse o último presidente militar do Brasil.

A humanidade precisa compreender o poder do mito, para então entender essa fragilidade psicológica coletiva, e assim escaparmos da obsessão popular pelos chamados salvadores da pátria. São pessoas que são usadas e, assim que cumprem sua missão, são descartadas ou queimadas vivas.

Eduardo Cunha foi o mito de muitos durante 2016. “Somos milhões de Cunhas”, diziam os cartazes. Hoje, esquecido em uma cela do Paraná, não passa de um hóspede do suposto “hotel das delações”. Quem cala, fica no hotel, quem delata vai pra casa, ou algo assim.

Após entender o conceito do mito, e como ele é usado e descartado pelas massas, o povo enxergará que os únicos verdadeiros salvadores da pátria somos nós.

Você deve se tornar-se o seu próprio mito para conseguir atingir seus sonhos. Quando você se tornar seu maior mito, irá inspirar confiança nas pessoas ao seu redor para eles desejarem vencer também, como você. A retomada do Brasil não depende de um mito, depende de cada brasileiro tornar-se um mito. Depende da fé de cada um de nós, de que trabalhando e batalhando honestamente pode-se progredir coletivamente como uma nação. O mito que salva o país não é o coletivo, é o mito individual, é o mito você.

Quanto a quem vamos eleger para administrar o bem público? Uma dica: não creia em mitos, pois 9 em cada 10 salvadores da pátria foram um fracasso completo.

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