Eis que surge mais uma brilhante idéia do governo: criar uma “megaestatal” a partir da fusão da Telebras, Serpro e Dataprev.

Para entender a lógica de se criar ainda mais empresas estatais em pleno ano de 2016, devemos rever quais foram os benefícios trazidos por nossas empresas estatais criadas no passado.

A nossa petroleira nos cobra R$ 4 por litro de gasolina nos postos. Afinal o grande projeto social de patrocinar carros de Fórmula 1 não sai barato.

O nosso maior e mais antigo banco estatal cobra 400% de juros anuais no cheque especial. Coitado de você se ficar devendo qualquer conta vencida para esse banco por mais de alguns dias.

Nossas antigas linhas telefônicas valiam ações na bolsa de valores. Essas ações foram jogadas em fundos sem fundo para depois serem pulverizadas no mar como cinzas de quem já se foi. A grande população que patrocinou as telecomunicações do Brasil não recebeu qualquer coisa em troca.

Na sua conta de luz vem uma curiosidade histórica chamada “assinatura básica”. A assinatura era uma contribuição cobrada pelo Estado para que ele desenvolvesse a malha energética do país. Ou seja, o povo patrocinou a energização do Brasil: pagamos pelos fios, postes, pelas obras faraônicas e incontáveis estações de transmissão de energia. E depois o público brasileiro não ficou sendo dono de nada.

O mesmo vale para sua conta telefônica: você pagou durante décadas uma “assinatura básica” que serviu para construir postes, passar fios, instalar antenas e por aí vai. E nada disso é seu hoje. E a tal da “assinatura básica” que aí ficou é simplesmente uma cobrança por algo que você não consumiu.

Por fim, o povo brasileiro patrocinou a construção da malha rodoviária de todo o Brasil. Pagou, e mais uma vez não levou. Hoje as melhores estradas são as privatizadas. Foi o povo que pagou por cada metro de asfalto, mas nem um centímetro lhe pertence e para usufruir dele hoje terá que pagar por quilômetro. E se olhar bem de perto, verá que boa parte das taxas e impostos anuais para emitir o documento de seu carro ainda são oriundos da época em que você estava patrocinando rodovias públicas.

Diante disso tudo, qual é o sentido de continuarmos a patrocinar empresas estatais que não geram qualquer diferencial para nós? Nos vendem gasolina mais caro que o mercado privado, nos cobram pela manutenção de uma infraestrutura que não nos pertence, nos cobram taxas em cima daquilo que não consumimos e, no fim, não oferecem o serviço básico para o qual essas estatais foram criadas. Hospitais públicos não funcionam, e o povo deve pagar por uma opção privada. Escolas públicas encontram-se abandonadas e as pessoas devem pagar cursinhos, aulas particulares complementares ou escolas privadas caríssimas se desejarem que seus filhos consigam competir no mundo atual.

Se é que me lembro bem, um dos pilares da Gestalt é que a soma das partes é diferente do todo. Partindo de algumas formas geométricas, enxergamos outras que não foram desenhadas, mas que foram construídas pelo nosso cérebro porque essas formas já nos eram previamente conhecidas. Funciona assim com o logotipo de algumas empresas(você já deve ter prestado atenção no C de Carrefour que “aparece invisivelmente” em torno do famoso logotipo). Aliás publicitários adoram a Gestalt para evocar sentimentos “top down”, que partem de memórias e conhecimentos sofisticados mas que nos conduzem ao ato primitivo que desejam promover.

O governo mostrou que sabe tudo de marketing e propaganda, mas sua Gestalt é realmente de trás para a frente. Os governos do Brasil tiveram a capacidade de partir de sofisticados conceitos que conhecemos bem, os empregaram de forma totalmente errada, e no fim conseguiram gerar formas irreconhecíveis e que evocam em nós apenas o sentimento de desespero. Desespero de ver o que estão fazendo com o Brasil, e desespero com a passividade da população que digere toda a propaganda e acredita fielmente que todas essas trapalhadas vão se somar e formar um Brasil espetacular.

Vamos ao ponto: eis que Dilma decidiu construir uma Torre de Babel empilhando três dinossauros estatais: Serpro, Dataprev e Telebras.

O Serpro não tem como competir contra empresas privadas prestadoras de serviços de processamento de dados em grande escala. Os gigantes nessa área vem de fora do Brasil. Na verdade o Serpro existe para atender ao poder público. Veja bem: ao poder público, não ao público sem poder.

Juntar a Dataprev com o Serpro de certa forma faz sentido. Claro, se a intenção fosse cortar gastos enxugando diversos órgãos em um só.

E a Telebras? Alguém sabe explicar para que serve a Telebras?

A Motorola inventou o telefone celular e foi recentemente fechada pelos chineses. Aliás, será fechada – a marca deixará de existir nos próximos meses. A IBM popularizou o Personal Computer, e mesmo assim os chineses a fecharam e mantiveram apenas a venda de hardware sob o guardachuva da Lenovo.

Empresas são abertas, cumprem sua função, e fecham. Algum dos vários “magos da administração de empresas” (nomes dos quais felizmente não me lembro) já falaram nisso antes: empresas tem um ciclo de vida quase biológico. Elas nascem, crescem, algumas se reproduzem, e todas morrem.

Não no Brasil.

A Telebrás, que já havia cumprido sua missão, foi ressuscitada para assombrar a população. Sabe-se lá qual o propósito de recriar esse dinossauro a partir do DNA encontrado em fósseis.

A verdade é que o único propósito de se criar mais uma empresa estatal, diante da bancarrota em que o Brasil já se encontra, é gerar mais um cabide de empregos e para o Poder Executivo ampliar, ainda mais, o seu poder. E é claro que tudo será patrocinado pelo contribuinte. Afinal a CPMF é absolutamente essencial e irá, única e exclusivamente, para a Saúde.

Na discussão que se gerou no Reddit.com alguns usuários exaltaram : “que venham os concursos públicos!”. É por aí. O real motivo da criação de uma “mega estatal”, quando todas as outras estatais estão falidas, é simplesmente colocar mais gente sob dependência estatal.

O certo seria tentar economizar dinheiro de impostos que o povo não suporta mais pagar. Poderiam economizar bilhões de reais se apenas dados essenciais e de segurança nacional fossem processados pelo Estado, terceirizando o resto.

Somando três empresas quase falidas, o resultado será uma enorme empresa quase falida. Na Gestalt Estatal a soma das partes vai deixando o todo cada vez menor.

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