Todos conhecem a insignia do agente secreto mais famoso do mundo. Bond, James Bond, reportava-se aos chefes do MI6, o serviço secreto britânico, pelo número 007. Porém há uma história, da vida real, que não é muito conhecida dos fãs do agente fictício.

O código 007 realmente existiu, e pertenceu a um agente secreto que trabalhou para a rainha há mais de 400 anos atrás.

Na década de 1580, um grupo de conspiradores planejou a morte da rainha Elizabeth I – ancestral da atual monarca britânica. A história de como tudo se desenrolou é uma das anédotas mais conhecidas no mundo da criptografia moderna. Em resumo, os conspiradores tentaram passar uma mensagem à rainha Maria dos Escoceses, que estava presa. Essa mensagem foi decodificada e custou a cabeça de todos os conspiradores, inclusive da rainha Maria.

A rainha Elizabeth I possuía uma enorme rede de espiões espalhados por todo o mundo. Todos que conspiraram contra ela perderam a vida. O trono britânico manteve-se na mesma linhagem até os dias atuais graças a essa atuação implacável dos James Bond da vida real.

Um dos espiões mais eficazes da rainha chamava-se John Dee. Reza a lenda que seus relatórios garantiram à Inglaterra sua vitória sobre a Espanha durante a guerra entre os dois países, ocorrida no século XVI.

John Dee assinava cada relatório dirigido à rainha com o número “007”.

O chefe do agente 007 da vida real era Sir Francis Walsingham, conhecido também por “o mestre espião” (The Spymaster) da Inglaterra. Seria o equivalente à “M” dos filmes do James Bond. Essa alcunha é usada, informalmente, para denominar os chefes espiões dos Estados Unidos e Reino Unido até os dias atuais.

Todo o sinistro mundo dos espiões ingleses foi adaptado pelo escritor Sir Ian Fleming, que transformou a boçal ditadura britânica do século XVI em um romântico seriado onde o agente mais atrevido a serviço da rainha sempre derrota os vilões mais esquisitos do planeta com armas modernas, super carros, lanchas e aviões futuristas – tudo isso enquanto conquistava a donzela.

Mas a realidade, é que não havia qualquer charme no trabalho dos James Bond da vida real.

O reino da Inglaterra foi mantido nas mãos da mesma família durante séculos por meio do emprego do mais absoluto terror. Torturas, execuções públicas e espetáculos de barbárie de toda espécie eram a receita dos “nobres” para perpetuar-se no poder e garantir a expansão de um dos maiores impérios da história.

Por exemplo, a máscara hoje adotada pelos hackers como símbolo do grupo Anonymous é de Guy Fawkes, um dos católicos conspiradores que os espiões descobriram tramando contra o trono protestante da rainha no início dos anos 1600. Fawkes foi sujeito barbaridades impensáveis, foi torturado durante semanas, prática que já havia se tornado rotina na ditadura britânica. Havia até uma rotina sádica onde o rei ia  passear pelos centros de tortura, tradição que até hoje é mantida simbolicamente, quando o rei ou rainha vai até o parlamento visitar os calabouços subterrâneos do prédio. Após as torturas, Fawkes foi condenado a ser enforcado lentamente. Antes de morrer foi esquartejado ainda vivo na forca, com pedaços de seu corpo espalhados por toda Londres.

Esse era o regime de poder ao qual serviu o verdadeiro 007 em suas missões nada charmosas. John Dee era franzino, tinha aparência comúm, ocultava o rosto com uma enorme barba e jamais foi qualquer coisa parecida ao James Bond apresentado nas telinhas do século XX. Dee era tímido, calado e muito reservado. Jamais imaginou que seria eternizado como um bonitão que conquistava todas as mulheres mais belas e salvava, sozinho, o mundo dos planos mais macabros imagináveis. Seu trabalho era discreto, tomava notas secretas, por vezes escritas com cera para que a mensagem não fosse vista a olho nú. Fazia o transporte secreto das mensagens, sem possuir os meios modernos e as habilidades de artes marciais do James Bond, sua missão era apenas passar desapercebido por onde quer que fosse.

Como quase sempre, a realidade é um pouco mais estranha que a ficção.

 

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“O mal que o homem faz viverá para sempre com ele. O bem é enterrado junto com seus ossos.” – William Shakespeare

“O mal que o homem faz segue vivendo, e vivendo.” – Iron Maiden, The Evil That Men Do

 

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Referência: Atlas Obscura

Imagem: Pintura com o busto de John Dee, o agente 007 da rainha Elizabeth I

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