A Internet promoveu um ritmo de globalização cultural para a qual o ser humano não estava preparado.

Dia após dia, nota-se que as pessoas estão ficando mais chateadas, ansiosas e tensas com o mundo ao seu redor. Nada parece satisfazê-las. Vivemos sob o bombardeio incessante de informações, cobranças e stress gerados pelas redes sociais e pela comunicação permanente, em tempo real, propiciada pela Internet.

Da noite para o dia as pessoas encontraram-se cientes de praticamente tudo que ocorre em qualquer parte do mundo. Isso seria ótimo, não fosse a profunda desigualdade economica, social e cultural que está sendo consumida em tempo recorde. Você não tem X, fulano tem Y, aconteceu Z com cicrano. Seu subconsciente está consumindo toda essa informação e está transformando cada dado em uma cobrança que você fará a si próprio a partir de então.

Menos de 1% da população global vive como nos filmes de Hollywood, e hoje sabemos que 90% da riqueza mundial está nas mãos de 10% da humanidade. Impor esse tipo de padrão de vida para si mesmo é pedir para viver insatisfeito!

O resultado dessa explosão de informações que temos na Internet é que 90% das pessoas “comuns” (eu, tu, eles) comparam-se entre si disputando uma fatia dos míseros 10% dos recursos que este planeta nos oferece. Isso mudou com a Internet? Não, não mudou. Ocorre que agora essa realidade está diante de nós, na velocidade da luz, 24 horas por dia.

Vários conteúdos encontrados na Internet tem efeitos distintos, e todos contribuem para o estado de espírito da pessoa. Infelizmente contribuem de forma negativa, conforme veremos.

Globalização de Problemas Alheios na Velocidade da Luz

A Internet trouxe ao Brasil diversos problemas que nunca enfrentamos antes. O povo está deixando de se comportar como brasileiros, e está importando problemas psicológicos e sociais de outros países. A forma de se vestir, de agir, de pensar está cada vez mais parecida àquela dos países mais influentes do mundo. Isso sempre ocorreu, porém com ritmo muito mais lento que dos dias atuais.

No capítulo “O Brasil Sertanejo”, parte da obra “O Povo Brasileiro”, Darcy Ribeiro explica que o sotaque da língua que prevalesce é aquele dos centros financeiros e políticos. O sotaque mais influente no Brasil quando a capital era no Rio de Janeiro era o sotaque carioca. O sotaque paulista representava riqueza, em função da capital de SP ser o principal polo financeiro do país. Quando a capital mudou do Rio de Janeiro para Brasília, o sotaque carioca começou a perder influência, e passou a ser até mesmo motivo de chacota em alguns círculos.

Note essa mudança drástica ocorrida em pouco mais de 50 anos, com a mudança do centro político do país para o Planalto Central.

Resulta que o português caipira é o que mais se assemelha ao que foi aprendido com os colonizadores de Portugal! O sotaque que achamos “engraçado”, do interior, é na verdade muito mais parecido ao português clássico que aquele falado em São Paulo, Rio ou Brasília.

Vemos com esse exemplo como é fácil e rápido abandonar modismos e tendências de época.

Esse mesmo efeito ocorre hoje, só que em escala global. E não envolve apenas o sotaque, envolve também todas as outras questões culturais : musica, filmes, religião assim como problemas sociais, psicológicos e financeiros.

Os exemplos que são seguidos no mundo, são aqueles dos países mais influentes. Assim como o sotaque carioca um dia foi símbolo de poder político, hoje para estar na moda a pessoa deve vestir-se, comportar-se e consumir como nos países mais ricos e influentes do mundo.

Se os países mais influentes, politica e financeiramente, estão mal, subitamente o mundo todo está mal. O contágio é imediato, global, instantâneo. A Internet acelerou processos que antes ocorriam em décadas, e que hoje ocorrem em semanas.

A roupa vestida nos polos mais ricos do mundo é conhecida instantâneamente pela população mundial. O resultado é que desde as favelas do Brasil e da India, até a cobertura mais cara de Manhattan, a vestimenta “chic” é aquela dos polos mais influentes do mundo. E quem não pode comprar igual vai necessariamente ficar frustrado.

O problema pessoal de um cantor pop mirim torna-se problema pessoal de milhões de jovens pelo mundo afora. Um jovem qualquer que obteve sucesso aos 13 anos de idade, e que pode sofrer de depressão, baixa auto-estima e que pode ter problemas familiares, torna-se o “padrão de problema” a ser consumido por milhões de jovens mundo afora. Ter um problema parecido ao desse ídolo torna-se legal, globaliza-se a depressão na velocidade da luz.

E os aspectos positivos? Não proliferam? Infelizmente não tão rapidamente quanto os negativos, porque as pessoas tendem a divulgar muito mais os fatos que podem gerar empatia, que podem atrair ajuda externa, e esses fatos normalmente são de natureza negativa.

Notícias ruíns, fatos negativos, proliferam-se com velocidade muito maior que fatos positivos. Sim, muitas pessoas buscam dar um ar positivo às suas presenças nas redes sociais, mas infelizmente a vasta maioria do conteúdo que se vê é tenso, estressante, violento, agressivo e problemático.

A globalização dos problemas alheios não é um fenômeno novo, porém com a Internet esse mal adquiriu a velocidade da luz. Literalmente TODOS os problemas dos países mais ricos do mundo foram importados para o Brasil nos últimos tempos.

Estamos testemunhando comportamentos sociais que nunca existiram por aqui antes. E a velocidade com que esses problemas tem chegado até nós e que tem sido incorporados pela sociedade é assustadora.

Redes Sociais

As redes sociais são deprimentes. Todas as pesquisas já feitas comprovam que as redes sociais entristecem as pessoas. Por que? O motivo já foi explicado: estamos disputando migalhas e aqueles que conseguem transformar migalhas em algo valioso logo ostentam. E os outros 99% que foram incapazes do mesmo feito sentem-se com a obrigação de obter o mesmo sucesso.

O resultado é que as redes sociais são uma verdadeira feira de vaidades.

Usuários de redes sociais ocultam naturalmente problemas sérios, problemas emocionais, financeiros, de saúde para ostentar nas redes algo que não são e que não tem. Ninguém gosta de ficar mostrando suas fraquezas!

O resultado disso é que pessoas estabelecem para si um padrão impossível baseado em padrões falsos adquiridos de outras pessoas.

Você não terá o abdômem daquela modelo que malha 15 horas por dia e vive só disso. Você não terá o carrão do empresário que trabalha 16 horas por dia e vive só para juntar dinheiro, não tem filhos e não gasta um centavo com despesas desnecessárias. Você não saberá tanta matemática ou física quanto o rapaz que vive em Massachussetts e estuda 20 horas por dia sem parar.

Não importa qual seja sua meta, seja intelectual, financeira ou estética, as redes sociais vão te colocar diante dos 1% que fazem o que você gostaria de fazer mas não pode.

Religião

A proliferação de idéias radicais tem sido um dos grandes males catalisados pela Internet mundial.

Infelizmente agora temos o mesmo fenômeno sendo importado para o Brasil. Pessoas usam-se das redes sociais para proliferar idéias radicais, de diversas religiões, e o Brasil está diante de um fenômeno que não era um problema com o qual nos preocupávamos até 20 anos atrás: o acesso a idéias religiosas radicais.

A intolerância religiosa está sendo importada para o Brasil na velocidade da luz. Pessoas que tem problemas pessoais e sociais fazem pesquisas na Internet e encontram pessoas parecidas ao redor do mundo. E em questão de minutos são doutrinadas por sites que publicam os maiores absurdos imagináveis. Essa pessoa que talvez, no século passado, fosse o “doidinho da cidade”, agora é uma “doido” perigoso, armado e informado sobre como “vingar-se do mundo”.

No Brasil a sociedade é feita de cristãos, missionários, candomblé, ateus, crentes, budistas, espíritas  e incontáveis outras manifestações da fé ou da ausência dela. Nossa civilização não é oriunda de um só pensamento, nem de uma só religião.

O brasileiro médio nunca foi de ficar tentando converter outros brasileiros para sua religião e sempre fomos um povo relativamente maduro com relação à fé alheia. Até pouco tempo atrás o Brasil era oficialmente Católico. Porém, com a Constituição de 1988, o Estado tornou-se laico. Culturalmente ainda prevalescem nas repartições públicas simbolismos oriundos do Catolicismo. Porém não é mais uma questão jurídica, e sim meramente cultural, histórica e que tende a mudar com o tempo.

Então, de onde surgem esses novos movimentos proselitistas? As pessoas estão importando para o Brasil toda o marketing religioso de grupos com sede em outros países. Se traduzir, ao pé da letra, o discurso de certos neo-líderes religiosos brasileiros, verão que é exatamente idêntico a “profetas” dos Estados Unidos que ficaram ricos e famosos dos anos 1960 em diante, com a proliferação de programas terapeuticos na TV. O próprio conteúdo apresentado aqui é idêntico ao do Jimmy Swaggart, Pat Robertson e outros expoentes desse tipo de programa lá na América.

A televisão fazia o papel da Internet hoje, porém tinha alcance local, regional e, portanto, bem restrito. Agora o escopo é global e extremamente direcionado. Quem consome esse tipo de conteúdo já estava procurando por ele, e agora o encontra facilmente em qualquer parte do mundo.

Economia

Da noite para o dia as pessoas deixaram de competir com os vizinhos e passaram a competir em escala global. Antigamente, o carro, a casa, “a galinha e a grama” do vizinho eram a referência. Agora você abre o Facebook e vê a casa do novo ídolo de 11 anos de idade que ficou milionário com um vídeo postado online lá naquele país mais rico que o seu.

E aí, instintivamente, sua exigência pessoal, sua ambição material, deixa de ser do padrão local, atingível, e passa a ser global. Você tem que ser tão bom quanto o rapaz que nasceu em berço dourado no país mais rico do mundo! Você não pode mais ser apenas um rapaz do interior do Brasil, crescendo um passo de cada vez. Precisa vencer a nível global.

Isso não é uma ação voluntária, é inconsciente. Você pensa que não quer, mas seu inconsciente já te impôs ser tão rico quanto o rico lá do outro país. E você viverá deprimido porque não consegue atingir o mesmo nível, porque o país deles é muito mais rico, porque a lei deles é mais ágil, porque o sistema deles permite certas coisas que o nosso sistema emperra.

A referência de riqueza deixou de ser no bairro, na quadra, na cidade. Agora é global. E o seu inconsciente capta tudo isso e te injeta periodicamente uma dose de cobrança.

Intolerância

A Internet importou todos os tipos de intolerância para o Brasil. Já falamos da intolerância religiosa, porém há diversos outros tipos de manifestação da ignorância e que também ganharam velocidade da luz com a Grande Rede.

Os movimentos de extrema-direita e extrema-esquerda tem agora todas as ferramentas que precisavam para externalizar seus problemas pessoais na forma de intolerância destilada.

No Brasil como em todo o mundo, sempre existiram gays, heteros, skinheads, brancos, negros, amarelos, esquerdistas, direitistas e assim por diante.

E apesar do racismo histórico, um problema que também importamos da Europa, sempre tivemos uma convivência relativamente pacífica.

O extremismo visto em certos países do mundo não era característico do povo brasileiro. Não estou negando que temos, e tivemos no passado, graves problemas de racismo. O que estou dizendo é que nossos problemas são nossos e estrangeiros são estrangeiros. O racismo da América do Norte é diferente do nosso, que é diferente do Europeu.

Porém, com a velocidade da Internet, da noite para o dia, brasileiros importaram todos os problemas da intolerância estrangeira.

A música negra brasileira passou a falar dos mesmos temas da música negra americana! Porém no Brasil a polícia branca não espancou até a morte o Rodney King, nem os negros e brancos tinham banheiros separados, nem a Rosa Parks recusou-se a levantar para um branco no ônibus! Nada disso ocorreu no Brasil, isso é história que pertence à América. Nós temos os nossos próprio problemas para cantar.

O Brasil tem sua própria história, com seu próprio racismo, com seus problemas culturais históricos. A quebradeira de Los Angeles e o rap de gangues de Compton não são parte da cultura brasileira porque aqui não encontram lastro histórico. Manifestações culturais que imitam a estrangeira sem qualquer compromisso são simplesmente projetos financeiros visando lucro rápido com um produto descartável.

Importamos parcialmente o pior da cultura estrangeira, sem compreendê-la, falamos de problemas que importamos de fora do Brasil e esquecemos dos nossos. As favelas tem suas próprias histórias de violência, mas boa parte dessa violência foi importada do estrangeiro também.

O rap de protesto do Racionais MC’s fala exatamente disso:

Schimth, Taurus, Rossi, Dreyer ou Campari
Pronúncia agradável
estrago inevitável
Nomes estrangeiros que estão no nosso morro pra
matar e M.E.R.D.A.

Infelizmente a importação de “M.E.R.D.A.” agora está mais acelerada do que nunca.

Violência

As pessoas pensam que podem consumir vídeos violentos em sites como o Live Leak e que isso não os afetará fisica e psicologicamente. Existem comunidades inteiras online dedicadas a mostrar videos horrorosos, de morte e violência sem limites. Tudo real, tudo factual.

Poderiamos argumentar que bloquear esses vídeos seria um tipo de censura! Sim, sem dúvidas. Sou totalmente contra o bloqueio de conteúdos. A questão é que você, pessoalmente, deve optar por evitar consumir esse tipo de conteúdo.

O nosso corpo tem processos de auto-defesa que não compreendemos totalmente. Ao estarmos diante de violência e crueldade, naturalmente nosso corpo entra em modo de proteção. Injeta adrenalina, prepara seu cérebro para a guerra, para o combate. A violência não é vista imparcialmente, o seu corpo reage de acordo.

E um corpo que está pronto para a guerra não está relaxado. O resultado desses vídeos violentos é justamente deixar a sociedade triste, estressada, chateada com o que está ocorrendo do outro lado do mundo.

É preciso denunciar a violência? Sim! É preciso divulgar o que está ocorrendo em nosso planeta? Claro!

Porém o consumo excessivo e constante desses conteúdos violentos, como ocorre na Internet,  gera um problema maior : a proliferação dessa violência cuja denúncia buscava justamente combater!

A sociedade está cada dia mais presa à Internet. Nos ônibus, nas ruas, caminhando no parque, as pessoas estão coladas a um aparelho de telefone sem conseguir desconectar um segundo sequer. A absorção de conteúdos violentos agora se dá a qualquer momento, em qualquer lugar.

Notícias

Boas notícias não vendem jornais. Essa máxima do jornalismo agora foi acelerada ao extremo. Antes, as notícias eram vistas no almoço e no jantar. Eram os chamados horários nobres da TV. Isso está desaparecendo…. A Internet exige notícias 24 horas por dia, e quando não há notícias, é preciso preencher o jornal com algo, qualquer coisa.

Aqui o problema é semelhante ao dos vídeos e fotos violentas. Saber de um episódio triste que ocorreu não é o problema. Infelizmente nossa realidade tem esses episódios tristes e o noticiário tem que mostrar.

Porém na Internet o consumo de notícias ruíns é permanente, ocorre 24 horas por dia.

As pessoas estão ficando cada vez mais tristes com o noticiário. Hoje mesmo caiu um avião na Europa, a corrupção no Brasil está sendo toda exposta, o cenário político é de intolerância e radicalização, a economia da China vai mal, a Inglaterra quer sair da Comunidade Europeia, a Polonia quer mais armamentos da OTAN, a guerra civil na Siria está um caos, o Iraque está em guerra civil e lá tem surgido novos grupos terroristas, a Arábia Saudita está batendo recorde de gastos com armamentos, a Bovespa está caindo, o dólar subindo, há 60 mil homicídios no Brasil, uma batida de carro matou 8 pessoas pertinho de você. Como o nosso corpo reage a tanta informação? Como reagimos a toda essa pressão?

O noticiário parece um filme de terror. Todos os problemas de todas as vizinhanças da cidade alí, expostas à sua frente para você consumir e ficar deprimido em tempo real. Todas as batidas de carro da cidade precisam se tornar assunto mundial por meio da Internet. Todos os crimes, mostrados em detalhes minuciosos, agora precisam fazer parte da realidade de todos os cidadãos em tempo real.

Quer melhorar sua qualidade de vida? Não leia os noticiários online. Vai sentir um salto de energia vital, de repente todos os problemas do mundo não serão mais seus.

Desligue a Internet!

O resultado de todo o exposto é um estresse coletivo, é uma sociedade que está cansada, estressada, se cobrando demais e vivendo pouco. Nós brasileiros já fomos mais “felizes”, mesmo que iludidos no passado, mas fomos um povo mais feliz, mais unido e menos intolerante. Com todos os problemas dos anos 1980 em diante, éramos mais sonhadores, mais românticos, mais esperançosos. Tínhamos nossa própria história, com todos os nossos problemas, mas era uma história brasileira.

Não precisamos viver como os países ricos. Não precisamos ter e fazer tudo que se faz lá no estrangeiro. Podemos importar de lá as boas universidades, os bons hospitais, o conhecimento positivo, a educação fabulosa que outros países tem. Mas parece que não importamos nada disso! Importamos apenas futilidades, conhecimentos rasos, falsos ídolos e tendências pop que desaparecem da mesma forma que surgiram: sem agregar valor algum.

O que fazer? Desligue a Internet. Desligue os dados móveis de seu celular.

Curta o momento sem ter que registrar e filmar e compartilhar tudo na sua rede social favorita.

Leia as notícias somente de manhã, ou no almoço, jamais a noite! Deixe o resto do dia fluir sem saber de tudo que acontece a cada minuto! Vá caminhar no parque sem levar o telefone. Esqueça-o no carro! Não precisa atender todos os telefonemas que chegam, deixe o telefone em casa quando for fazer compras.

Vivemos 2000 anos sem telefones e o mundo não acabou. Ficamos quase 2000 anos D.C. sem telefones celulares, e o mundo não acabou. Desligue o seu, verá que tudo continua igual.

Experimente fazer isso apenas um mês e verá um aumento significativo na sua qualidade de vida. A Internet é uma ferramenta fabulosa, porém como toda ferramenta poderosa ela pode ser usada para o bem ou para o mal. E o excesso de Internet é um problema sério, global e que está afetando as pessoas de forma expressiva, especialmente nesses tempos de turbulência política e financeira.

Experimente sair da Rede durante alguns tempos e note, até mesmo em questão de dias, como estará mais [email protected] e de bem com a vida.

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