Full Disclosure: Autoridades e jornalistas deveriam divulgar seus investimentos na bolsa de valores

Você, por acaso, já percebeu que a imprensa trabalha de bom humor quando a bolsa de valores está em alta? O Twitter e Facebook dos jornalistas fica bastante florido em dias de bonança nos mercados financeiros!

Há uma outra categoria de profissionais que também fica muito contente quando suas ações na bolsa de valores estão em alta – as autoridades públicas que tomam decisões que podem impactar grande parte da sociedade.

Onde está o “Full Disclosure” dos jornalistas brasileiros?

É de praxe, nos Estados Unidos, que jornalistas divulguem se tem ou não investimentos nas empresas que mencionam em suas reportagens. No fim das matérias pode ser visto um “Full Disclosure”, onde o jornalista diz se tem investimentos ou se está “vendido” (apostando na queda) nas ações que acaba de mencionar no texto.

Trata-se de um exercício de ética jonalística, coisa que não se vê muito no Brasil.

Existem colunas jornalísticas no Brasil que tem sócios que atuam abertamente no mercado financeiro. Um bem conhecido blog que copia seu conteúdo de outros outlets de mídia, injeta-lhe sensacionalismo para depois requentar o conteúdo com mais tempero, vive justamente da tentativa de manipular o mercado com suas notícias. Qualquer coisa a favor do PT derruba a Bovespa, qualquer coisa contra ajuda a Bovespa. Com essa fórmula simples faturam centenas de milhares de dólares por mês.

A Reflexividade de Soros

Essa mistura perniciosa do jornalismo com a bolsa de valores influi naquilo que o especulador George Soros chama de “teoria da reflexividade”. Segundo Soros, as pessoas influenciam o mercado, o mercado responde e influencia as pessoas, gerando um ciclo de reflexividade. Isso, segundo Soros, leva a picos do que ele chama de boom/bust. Altas enormes seguidas de quedas exacerbadas. Foi usando essa teoria que Soros faturou bilhões especulando no mercado financeiro. Quando todos estão alegres vendo seus investimentos nas alturas, Soros está alugando ações para entrar vendido. Quando todos estão desesperados com a queda da bolsa, Soros está comprando.

O poder público é pautado pelo rendimento da bolsa de valores?

De volta ao assunto deste post, vemos que existe uma enorme “boa vontade” jornalística e de setores públicos para com certas medidas quando o dólar cai e a bolsa de valores sobe. Isso é ético? É lícito? É moral?

Podemos extender esses questionamentos, elaborando algumas perguntas mais pontuais sobre a ética no jornalismo e no trabalho das autoridades públicas.

  1. Até onde decisões judiciais são influenciadas pelo impacto que terão na bolsa de valores, se não sabemos se o juiz que tomou a decisão possui ou não investimentos na bolsa?
  2. Até onde a atividade legislativa está sendo direcionada pelos investimentos dos legisladores? Parece haver correlação entre várias sessões legislativas e seu impacto no mercado financeiro.
  3. Em que nível a performance da Bovespa tem pautado o trabalho de procuradores e investigadores?
  4. Como são tratadas as informações sigilosas detidas por autoridades públicas e que podem impactar o rendimento futuro da bolsa de valores? Qual o nível de vazamento dessas informações?
  5. Congressistas, altas autoridades do Judiciário e do Executivo usam informações privilegiadas em seus investimentos?
  6. Qual o portfolio de investimentos de determinado meio de comunicação? Há conflitos entre seu conteúdo e o resultado que espera obter no mercado financeiro?
  7. O jornalista divulgou se tem ou não ações ou opções de compra/venda nas empresas citadas na reportagem?

A teoria da reflexividade de Soros torna-se ainda mais relevante quando são considerados os pontos acima elencados, por tratarem-se de atores que influenciam as vidas de milhões de pessoas com seus atos. Atores pagos com dinheiro público e que devem fazer prestação de contas de seus rendimentos à sociedade. Especialmente se esses rendimentos forem oriundos do acesso à informação privilegiada que seus cargos lhes conferem.

A incendiária propagação dos interesses do mercado

A combinação dos interesses da mídia, com a política e o mercado financeiro, considerando-se os níveis endêmicos de corrupção no Brasil, geraram um sistema que divulga distorções absurdas que são rapidamente absorvidas pelo povo.

A população consome toda essa informação distorcida, e retroalimenta o sistema, publicando nas redes sociais e influenciando a política do país justamente com base nas informações manipuladas que obteve de autoridades e da mídia em geral. Cria-se o exato movimento que se desejava criar, o povo é levado a fazer precisamente o que os difusores de tal informação desejava, sem precisar usar repressão, censura ou atitudes forçadas.

Cria-se, facilmente, negatividade ou positividade em torno de uma pessoa, partido, ideologia ou qualquer outra idéia de acordo com a influência que isso poderá ter na bolsa de valores, de acordo com o interesse de uma estrita minoria que detém o poder de difundir em grande escala tais informações.

O resultado é uma catástrofe social. Todos os valores parecem ter sido trocados pelo interesse financeiro imediato. Já não se pode emitir a opinião sobre algo sem ser enquadrado como esquerdista, direitista ou qualquer outra denominação religiosa, ideológica ou até mesmo de gênero sexual. Falamos extensivamente sobre isso em nossa postagem sobre o fracasso das redes sociais.

É preciso julgar os atos públicos e o conteúdo jornalístico levando em consideração o interesse financeiro

A saúde do mercado financeiro é importante para a sociedade, porém o humor da sociedade deve pautar os rumos do mercado financeiro, e não o contrário.

Pare e observe o quanto a informação que você está recebendo é pautada pela situação da bolsa de valores de São Paulo e de Nova York. Perceba que nos dias em que a bolsa está subindo, o jornalismo é mais positivo que nos dias em que o mercado encontra-se negativo.

Há uma correlação direta entre o rendimento dos investimentos na bolsa e aquilo que os jornalistas publicam. E isso é antiético quando não há total transparência por parte do jornalista sobre seus investimentos e interesses no assunto tratado.

O jornalista não deve ser obrigado a divulgar seus investimentos por força de lei, e sim pela exigência dos leitores. O leitor deve enviar mensagem ao jornalista perguntando qual seu grau de interesse na matéria em questão.

Por fim, é preciso que autoridades do alto escalão divulguem seus investimentos na bolsa de valores. O full disclosure deve valer, principalmente, para o setir público. Há decisões tomadas nos mais altos escalões do poder público do país que parecem ter, claramente, nitidamente, o propósito de influenciar a sessão seguinte da Bovespa.

O Brasil vem testemunhando decisões judiciais contraditórias sendo tomadas nos mais altos níveis do Judiciário. Devemos questionar o que leva uma autoridade máxima do Judiciário a emitir votos que contrariam seus próprios votos de alguns meses atrás! Por que juízes emitem decisões contraditórias com apenas meses de intervalo? O que moveu sua decisão?

O país vem testemunhando o desrespeito a decisões judiciais. O povo vem testemunhando legisladores que estão trabalhando abertamente para agradar ao mercado financeiro ou a interesses específicos – sem falar nas incontáveis ações para blindar-se da Operação Lava Jato.

É preciso meditar sobre qual parcela da população investe na bolsa de valores, e se esse tipo de jornalismo beneficia apenas a uma estrita minoria ou se é positivo para a população. Não devem haver leis restringindo o trabalho jornalístico – toda essa cobrança e fiscalização deve partir da população. Podem-se ver gritantes conflitos de interesse no jornalismo atual, inclusive de grandes nomes da imprensa nacional.

Os rumos das políticas públicas não podem ser guiados pelo humor da bolsa de valores. Infelizmente isso parece estar acontecendo sistematicamente na imprensa e no mais alto escalão do poder público brasileiro.

Full Disclosure : O autor desta matéria não é servidor público e, no presente momento (Fev/2017), não possui ações ou opções na Bovespa, apesar de investir casualmente há cerca de 20 anos.

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Sobre o Autor: Smith Kamel é escritor e analista de sistemas atuando na iniciativa privada.

 

Imagem em destaque: Usura do banqueiro. CC0 – Domínio Público

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