A partir do dia 14 de Março de 2017, um pedacinho da história da WWW estará chegando ao fim.

Houve uma época em que sonhou-se organizar a WWW a mão, de forma colaborativa, com o esforço unificado de milhares de pessoas ao redor do planeta. As pessoas indicariam quais sites tinham maior qualidade, e os inseririam no diretório DMOZ, para serem então encontrados por meio de um simples sistema de busca.

Era uma tentativa de concorrer com o diretório do Yahoo!, só que de forma inteiramente grátis e aberta e sem o controle de uma grande corporação. A inclusão no diretório do Yahoo! custava U$ 299, e mesmo pagando a taxa não haviam garantias de que um site seria aceito. A idéia do DMOZ era tornar esse processo aberto, colaborativo, grátis/libre – no mesmo espírito do Software Livre, porém para a seleção e organização de sites. O DMOZ era pra ser a Wikipedia dos sites.

Infelizmente essa idéia foi muito mais difícil de executar do que se poderia imaginar.

A WWW foi totalmente tomada pelo dinheiro e por interesses financeiros. Links entre os sites não eram mais naturais, mas sim uma troca que poderia valer muito dinheiro. A inclusão no diretório DMOZ significava estar inserido na semente das pesquisas do Google – pois durante muito tempo o GoogleBot, robô do Google que captura as páginas para o sistema de busca, utilizou o DMOZ como ponto de partida para fazer sua ronda pela Internet. Sites que constavam no DMOZ tinham grande peso no algoritmo do Google, o que significava maiores lucros. Assim, a inclusão no DMOZ também tornou-se uma moeda de troca, ilicitamente, diga-se de passagem, pois as regras do diretório proibiam expressamente que os editores cobrassem por inclusão. Na prática, isso ocorria de forma indiscriminada.

Para obter a inclusão no DMOZ, muitos webmasters também tornavam-se editores só para inserir seus próprios sites, e também para bloquear sites de concorrentes. O jogo tornou-se antiético, e aos poucos o DMOZ foi perdendo seu brilho.

A comercialização da WWW trouxe o fim do DMOZ. Hoje apenas grandes sites conseguem vencer no jogo das buscas online. Os maiores e mais poderosos sites do mundo pagam altas somas para obter exposição por meio de anúncios pagos, e para conseguir competir com eles é necessário ter enormes somas de capital investido.

Com o DMOZ, morre mais um pedaço da WWW ingênua e não comercial, termina mais uma história dos anos dourados da WWW. Acaba mais um componente do sonho inicial por trás da WWW, de que a colaboração entre pessoas poderia se sobrepor à competição. Hoje a maior parte do tráfego da WWW ou é comercial ou é 100% fútil e dispensável – a colaboração não se tornou o foco da WWW. Há, sim, a propagação de muito ruído, muitas bobagens, propagandas disfarçadas de conteúdos e assim por diante.

As redes sociais são um fracasso, e o Google tornou-se o sistema de buscas dos grandes sites e onde links tornaram-se mercadoria caríssima de se obter. Há também a tendência dos resultados de busca do Google tornarem-se mais e mais semelhantes à timeline de uma rede social, fato que tem mudado bastante a forma de se encontrar conteúdo na WWW.

Com o fim do DMOZ, desaparece mais um dos sistemas que tentaram tornar a WWW totalmente aberta e transparente. Hoje, a WWW encontra-se cada vez mais escondida atrás de timelines como as do Facebook, Plus e Twitter.

Quem sabe, no futuro, seja possível viabilizar um projeto como o DMOZ sem que ele seja totalmente desvirtuado pelo interesse financeiro. Por hora, o que podemos dizer é adeus DMOZ, e obrigado por muitos bons momentos de exploração durante os anos dourados da WWW. Ter navegado o DMOZ usando Netscape Navigator, algo tão comúm então, agora tornou-se história de veteranos.

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Dicas: Quem desejar preservar os dados do DMOZ, para fins históricos ou para tentar recriar um mirror do site em outro domínio, os bancos de dados do diretório podem ser livremente baixados por meio deste link.

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