O leitor encontra uma notícia sobre política e decide dar sua opinião. Um retorno sincero sobre o assunto, algo que sente que é relevante e que deseja comunicar ao autor da matéria ou para o próprio meio de comunicação.

Em seguida abre o espaço de comentários e, ao ler as primeiras 3 ou 4 opiniões, fica estarrecido com tamanha ignorância. Tudo o que leu é exatamente o contrário do comentário sensato que iria fazer! Parte-se então para tentar educar um pouco aquela plebe rude. Explica-se, colocam-se argumentos, links para notícias contendo os fatos, mostram-se fontes de dados confiáveis, mas nada parece mudar a direção da conversa. Surgem outros comentaristas que inundam o espaço com as mesmas opiniões controversas do comentário original, ofuscando sua contribuição para o debate.

Se tudo iso lhe parece familiar, parabéns! Você se deparou com uma brigada virtual.

Todo seu esforço para inserir um pouco de bom senso naquele contexto foi em vão : haviam ali dezenas, senão centenas, de usuários que coordenam operações por meio do Skype ou WhatsApp para então entrar fazendo uma verdadeira blitzkrieg nos espaços de opiniões. O ponto de vista colocado pela brigada prevalesce e passa a aparentar, para os leitores que virão depois, que é o consenso sobre aquele assunto e que a maioria pensa daquela forma.

Como citamos em diversos artigos no TICS.TAXI, por esse e outros motivos, as redes sociais são um verdadeiro fracasso. Eram uma ferramenta útil para o esclarecimento coletivo, não tivessem sido totalmente dominadas por grupos organizados e dedicados apenas a forçar seu próprio ponto de vista, por quaisquer meios disponíveis.

As brigadas virtuais fazem a cabeça de milhões de pessoas na Internet. Seja para atingir um fim político, uma campanha eleitoral por exemplo, seja para ocultar um fato sobre alguém que tenha cometido um delito, para vender um produto ou idéia, e assim por diante, as brigadas estão por toda parte e são muito bem remuneradas.

Neste artigo veremos algumas das táticas usadas por esses grupos, para o internauta proteger-se de sua influência nefasta e formular seu próprio juízo sobre os fatos que encontra nas redes sociais e nos campos de comentários da grande imprensa.

Táticas de guerra nos fóruns virtuais

Empregam-se verdadeiras táticas de guerra nos fóruns virtuais. Qualquer usuário pode visitar o Twitter, buscar um tópico controverso, e verá este tipo de tática em funcionamento.

Uma isca é plantada, um comentário propositalmente revoltante, uma opinião propositalmente insensata, uma agressão indireta a certos grupos, e o usuário que publicou a isca ausenta-se durante um tempo.

Usuários legítimos caem na armadilha: respondem no mesmo nível à provocação.

Enquanto isso, uma usuária, com uma foto sexy de perfil, publica algumas respostas também provocativas. Ela recebe ainda mais respostas agressivas de outros usuários pertencentes ao mesmo grupo que se buscava atingir.

Ao verificar o perfil da suposta usuária sexy, o leitor verá que ela possui centenas, milhares, de telas capturadas, repletas de ofensas e material que pode, facilmente, ser usado em futuros processos judiciais. Todos que publicaram respostas às provocações iniciais já se encotram em listas de grupos organizados, agências de inteligência, partidos políticos e empresas privadas especializadas nesse tipo de trabalho.

Os usuários que participam dessa trama são, nos Estados Unidos, conhecidos por “sock puppets”, ou “bonecos feitos de meias”. São bonecos, iscas de fóruns, e nada além disso. Por trás deles há um grupo organizado que busca garimpar nomes de ativistas para diversas finalidades.

 

ORM – Online Reputation Management (Gerenciamento de Reputação Online)

Um dos melhores negócios para marketeiros na Internet é o gerenciamento de reputação online, que na língua inglesa leva a sigla ORM. Esse tipo de profissional cuida para que a repercussão de um fato negativo sobre uma pessoa ou estabelecimento comercial tenha impacto mínimo nos seus negócios ou interesses futuros.

Quem contrata profissionais ORM?

Políticos enrolados em escândalos, empresas que tiveram alguma notícia negativa sobre seus produtos, cidadãos envolvidos em acidentes ou em casos criminais de grande exposição na mídia, entre outros.

O trablho de ORM pode ser conduzido de duas formas: buscando atacar a fonte da notícia que se deseja ofuscar, ou promover quem contratou o serviço ORM de modo a inundar a notícia negativa com fatos positivos sobre o contratante.

A primeira tática, de tentar desacreditar a fonte da informação, pode ter eficácia caso os fatos apresentados contra o alvo sejam falsos. Se um jornal publicar algo equivocado contra alguém, por exemplo, pode-se buscar um remédio judicial, requerindo à Justiça que se retire o material injurioso da WWW. Também existe a possibilidade de obter-se, pela Justiça, o direito à resposta.

Mas, nem sempre a Justiça pode ser acionada.

Em casos criminais, onde as informações são públicas e o veículo de comunicação tem o direito a divulgar os fatos, a única alternativa que resta ao alvo das notícias é contratar um gerente de reputações online para inundar os comentários com fatos positivos sobre essa pessoa ou até mesmo com comentários aleatórios, gerando polêmica e defletindo o assunto. Uma tática muito comúm é inserir em meio aos comentários, alguma questão polêmica relacionada ao tema. Alguém chega e afirma “bandido bom é bandido morto”, comentário sob o qual geram-se centenas de respostas. Gera-se ruído, tumulto, e a discussão deixa de ser sobre o objeto da matéria. O leitor atento notará este padrão em muitas notícias publicadas nas redes sociais.

Não é mera coincidência: podem ser profissionais distribuídos por toda a WWW, contratados de forma virtual e sem vínculo empregatício, dedicados única e exclusivamente a gerar tumultos nos campos de comentários.

Brigadas profissionais nos maiores fóruns da WWW

Um dos maiores escândalos da Internet norte-americana foi a descoberta, e posterior comprovação, de que fóruns gigantescos, como o Reddit, estavam sendo alvos de brigadas de comentaristas profissionais, com participação, inclusive, de agências governamentais de diversos países.

Diferente do Facebook, o Reddit permite aos usuários negativar opiniões. As opiniões mais negativadas são escanteadas e jogadas para o fundo dos campos de comentários. Quando há milhares de opiniões, aquelas mais abaixo não são lidas. Comentários com muitos “down votes” também são retiradas da vista do leitor, sendo preciso clicar em um sinal de [+] para poder ver seu conteúdo.

Essa característica do Reddit permite que, na prática, comentários sejam tacitamente censurados. Por meio dos votos negativos é possível remover comentários. Em outras palavras, usuários comúns exercem a moderação e a censura em um fórum, sem precisar serem administradores ou terem privilégios especiais. Basta organizarem-se com um número mínimo de participantes, que podem ser poucos, algo como 10 a 15 pessoas, para direcionar totalmente uma discussão no Reddit.

O algoritmo dos fóruns normalmente possui um componente temporal. Quando um comentário ou postagem recebe muitos votos negativos em pouco tempo, ele sofre uma penalidade maior do que sofreria se recebesse votos negativos lentamente. O algoritmo entende que foi colocada uma opinião muito ofensiva ou muito equivocada e por isso deve remover essa opinião da vista das pessoas.

Assim, brigadas organizam-se para pegar comentários logo que são postados. Aplicam-lhe 10 a 15 votos negativos, e esse comentário a partir daí encontra-se condenado.

O mesmo vale para votos positivos: um comentário que, logo que é postado, recebe muitos votos positivos, ganha um valor acima dos demais.

Manipulando os votos positivos e negativos do Reddit, a comunidade foi tomada por grupos que conseguem levar qulquer discussão para o lado que bem entenderem.

No próprio Reddit há subfóruns (chamados por eles de subs ou subreddits) dedicados a expor esse tipo de brigada. Citamos por exemplo o /r/shills onde você pode ler ,entre outros casos assustadores, sobre um grupo de agentes estatais de um determinado país, que recrutava usuários por meio de um fórum de marketeiros, e pagava-lhes um cache por comentário postado ou por comentário “inimigo” eliminado com sucesso.

Outro tipo de brigada comúm no Reddit visa promover, sorrateiramente, algum produto ou serviço. São fotos de situações divertidas, curiosas e que atraem o público de alguma forma, onde, porém, há um produto cuidadosamente colocado para obter máxima visibilidade. São incontáveis postagens falsas desse tipo. Como boa parte da audiência do Reddit é dos Estados Unidos, há muitas propagandas de comida via tele-entrega sutilmente publicadas como algo interessante. Fotos perfeitas de sanduíches, pizzas, cafés e até mesmo uma famosa marca de sorvetes dos EUA são frequentemente vistas na primeira página. Postagens do tipo “vejam que recado legal a pizzaria me enviou”, onde há algo rabiscado em uma caixa de pizza com a logomarca da pizzaria saltando para fora de seu monitor. A atividade de propaganda subliminar ou disfarçada de uma postagem letígima é documentada também no próprio Reddit, no sub /r/hailcorporate. No “Hail Corporate” podem ser vistas diversas postagens de propagandas, sutilmente inseridas no Reddit como algo interessante ou curioso.

MAVs : Brigadas de ativistas políticos no Brasil

Um documento do governo brasileiro, vazado em 2015, revela a preocupação do governo com a robotização dos comentários políticos nos principais sites de notícias nacionais.

Apesar de serem combatidos por meio de CAPTCHAS (testes para diferenciar humanos de robôs) e outras táticas contra a automação, os campos de comentários dos principais jornais do país seguem empesteados pelo conteúdo de marketeiros profissionais cujo único propósito é tumultuar o debate ou promover um ponto de vista específico.

Muitas vezes a robotização é, na verdade, simplesmente a formação de grupos de usuários pagos, como ocorre no Reddit. Aliás, esses grupos tem até nome: são os chamados grupos de mobilização de ambientes virtuais, ou MAVs.

Os MAVs eram, inicialmente, movimentos com cunho esquerdista. Ingressavam no campo de comentários de blogs políticos (na época em que ainda haviam blogs políticos independentes), e deixavam comentários dispersos, em apoio ao governo.

Posteriormente, outros partidos políticos aderiram à tática, e passamos a ter MAVs de diversas origens políticas. Hoje chegou-se ao ponto das discussões políticas no Twitter ou Facebook serem 90% ruído e mera tegiversação.

Notícias sobre corrupção envolvendo determinado grupo certamente terão grupos de MAVs de diversas origens tumultuando o debate. Os comentários autênticos, de cidadãos que procuram dar sua contribuição ao debate, ficam para segundo plano, soterrados na avalanche de conteúdo patrocinado por quem quer descarrilhar o assunto.

Conclusão

Quando o leitor se atenta para o fato de que o marketing profissional e as brigadas virtuais dão origem a boa parte do conteúdo colaborativo (principalmente nos comentários) de fóruns e redes sociais, passa a enxergar com outros olhos, e com muito mais cautela, o conteúdo lá encontrado.

Diversos vídeos, aparentemente inofensivos, fazendo graça de algum político ou partido, vídeos que parecem ter sido criados por usuários amadores, são na verdade criações profissionais, cuidadosamente divulgados para tornarem-se conteúdos virais nas redes sociais e aplicativos como o WhatsApp.

Durante períodos controversos da política nacional surge uma verdadeira enxurrada de vídeos e imagens engraçadas circulando nas redes sociais.

Basta calcular o tempo necessário, o custo, e o conhecimento necessário para produzir tais materiais, para ver que muitos ãso produções profissionais, feitas em estúdios e que trazem um bom retorno financeiro para seus autores. Quando o leitor se perguntar “quem é que tem tempo para produzir tanta coisa”, agora já tem sua resposta.

Deve-se, também, ter muito cuidado ao responder a provocações, pois muitas delas são propositalmente inseridas em meio a um grupo antagônico para gerar respostas agressivas. Assim as telas são capturadas e podem gerar até para processos judicais cuidadosamente premeditados. Eventos recentes no Brasil tem sido utilizados por brigadas virtuais para elicitar respostas violentas de certos grupos, onde até a morte de certos personagens é evocada por comentaristas mais exaltados. Esses comentários agressivos, em resposta ao agente provocador, são justamente o que a brigada virtual buscava obter, como forma de fortalecer seu ponto de vista e apresentar o grupo oposto como violento e reacionário.

 

 

Foto: Brigadas Virtuais das Filipinas treinam para ciberconflitos.

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